Agora restaurado, O País de São Saruê é um dos mais importantes documentários brasileiros

Vladimir Carvalho, diretor de O País de São Saruê

Nesta quarta-feira, 31 de janeiro de 2024, Vladimir Carvalho fez 89 anos. Festejou numa sessão especial no Cine Brasília, onde foi homenageado. O cineasta paraibano vive em Brasília há mais de 50 anos e, dessa vez, a homenagem foi com uma exibição de O País de São Saruê.

O País de São Saruê foi restaurado e agora passa a ser exibido em 4K. Ganhou uma sobrevida, como disse o próprio Vladimir. Esse documentário de 1970, que passou quase uma década proibido pela ditadura militar, é o momento mais importante da sua filmografia.

Vladimir e Caetano Veloso estudaram filosofia juntos na Bahia, no início dos anos 1960. Caetano escreveu algo muito interessante sobre a militância comunista desse paraibano de Itabaiana. É o que segue:

“Vladimir Carvalho é um amigo que eu via muito no tempo da universidade e vejo pouco hoje em dia. No entanto, quando penso nele penso num amigo constante. Há pessoas que parecem engrandecer-se por aderirem à luta pela justiça social; Vladimir é o tipo de sujeito que engrandece esses ideais, com sua adesão. E isso pode-se sentir em sua convivência, em suas conversas e em seus filmes”.

Vladimir Carvalho e meu pai estudaram juntos quando eram meninos. Vladimir e meu tio Hugo dividiram um quarto de pensão quando foram estudar na Universidade da Bahia. As suas histórias, ouvi em casa, na infância, antes mesmo de ver seus filmes. Minha aproximação com ele ocorreu depois, à época em que eu começava no jornalismo.

Vladimir Carvalho é um amigo que orgulha os amigos. Vejo nele o que meu pai também via, desde sempre: a integridade do cidadão, a dignidade do militante, o compromisso com as causas que abraçou, o humanismo que projeta em seus filmes.

Sim. Os filmes de Vladimir! Esse cara é um grande documentarista. Seu cinema vem de longe. Dos filmes que viu na infância e na juventude, dos livros que leu. Da militância comunista herdada do pai, ainda na Itabaiana da sua infância. Do ambiente em que estava inserido no tempo em que definiu o que queria fazer na vida.

Vladimir foi jornalista, fez crítica de cinema, foi professor na UNB. Mas é, essencialmente, um homem de cinema, um realizador de filmes. A vida toda, ele atuou numa área da produção cinematográfica de difícil comunicação com o público e precária distribuição comercial, a do cinema documental. Nunca quis enveredar pelos caminhos da ficção.

A filmografia de Vladimir reúne retratos que ele tirou da sua nave mãe (a Paraíba, o Nordeste), de Brasília (onde vive há mais de meio século) e de figuras que lhe são caras.

O País de São Saruê é um dos mais importantes entre todos os documentários realizados no Brasil. Por suas qualidades como cinema documental e ainda por ter se transformado num símbolo da luta contra a censura durante a ditadura militar.

O Homem de Areia mostra José Américo de Almeida – o político, o escritor – em seu ocaso e parte dele para mexer no tempo em que seu personagem viveu. “Vladimir é dos comunistas que admiravam Zé Américo”, dizia meu pai, que pertencia ao grupo dos que não admiravam.

O Evangelho Segundo Teotônio também foi realizado no ocaso de um homem, o senador Teotônio Vilela, o Menestrel das Alagoas. É expressivo registro do Brasil na luta pela redemocratização.

Conterrâneos Velhos de Guerra é como um grande filme épico. Os nordestinos que foram construir Brasília, os nordestinos que ficaram em Brasília. Brasília como representação do Brasil contemporâneo.

Rock Brasília – Era de Ouro é a prova cabal do comunista não sectário que há em Vladimir. Um documentário sobre o rock brasileiro dos anos 1980 (Legião Urbana, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso) a partir de Brasília.

Escolhi esses cinco filmes como síntese do cinema desse grande paraibano. Daqui a um ano, Vladimir Carvalho vai fazer 90 anos. É data que deve estar na agenda da Paraíba.