Cazuza aos 65 anos. Como seria aquele garoto que ia mudar o mundo?

Se estivesse vivo, Cazuza teria feito 65 anos nesta terça-feira, quatro de abril de 2023. Quando morreu, no dia sete de julho de 1990, vinha de uma extenuante batalha para sobreviver ao HIV.

Cazuza era do rock’n’ roll tanto no período em que foi o frontline do grupo Barão Vermelho quanto em sua trajetória solo. Mas ele também estabeleceu e manteve até o fim um vínculo com a chamada MPB.

Admirava a tradição da música popular brasileira e ainda os artistas que surgiram na era dos festivais. Recebeu influências deles, sobretudo quando o assunto era letra de música (ou poesia, se quisermos).

Aos 65 anos, Cazuza seria um homem no início da velhice. Citando a letra de Ideologia, como estaria aquele garoto que ia mudar o mundo? Nunca saberemos, mas é natural que a gente imagine velhos os artistas que a morte só permitiu que víssemos jovens.

Seus versos, pelo menos eles, permanecem atualíssimos neste Brasil:

Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

Estive com Cazuza uma única vez, quando ele cantou em João Pessoa no verão de 1989. Percorria o país com o show que a Globo registrou num especial e que foi lançado também em disco ao vivo (O Tempo Não Pára). Estava muito magro, todos sabiam que tinha uma doença grave, mas ainda não assumira publicamente que era portador do HIV.

Cazuza aos 65 anos. Como seria aquele garoto que ia mudar o mundo?

Fui ao Hotel Tambaú entrevistá-lo para o programa A Palavra É Sua, que era exibido nos domingos pela manhã na TV Cabo Branco. Costumávamos fazer em estúdio, mas, naquela semana, claro que abrimos uma exceção.

Assumi com a produção do artista o compromisso de que restringiria a conversa aos temas musicais. É que, naquele momento, a insistência de alguns jornalistas em abordá-lo sobre a doença dificultava sua relação com a imprensa.

A entrevista foi muito agradável. Cazuza estava na piscina (ao lado do amigo Ezequiel Neves, seu parceiro e produtor) e gravou comigo numa mesa próxima. De sunga, camiseta sem manga e boné.

Parceiros, rock’n’ roll, Bossa Nova, o êxito das suas canções, as diferenças entre poesia e letra de música, rock e MPB – estes foram os temas da nossa conversa. Ele falou da influência que recebera de Caetano Veloso, cujo interesse pelo “passado da música popular” (usou essa expressão) lhe servira de parâmetro.

A menção ao nome de Caetano me remeteu prontamente a algo que Gilberto Gil me dissera três anos antes numa conversa sobre o rock brasileiro da década de 1980: que se via, jovem, em Herbert Vianna, e que via o companheiro de Tropicalismo, igualmente jovem, em Cazuza.

Era Gil me convencendo de que o rock brasileiro dos 80 era muito melhor do que eu imaginava. Reproduzi o comentário de Gil, provocando uma alegria que Cazuza não disfarçou. Mas fiquei triste no dia em que o entrevistei. O resultado jornalisticamente positivo do que gravamos não era nada diante do quadro que vi: um artista jovem e talentoso consumido por uma doença devastadora.

Poucos dias após a entrevista, de passagem por Nova York, Cazuza disse que era portador do HIV. Fez a revelação a um repórter da Folha. Sua agonia se estendeu até o dia sete de julho de 1990. Quando morreu, tinha somente 32 anos.