Golpe de 64 foi em primeiro de abril, mas era o Dia da Mentira

“Te deixo consternado/No primeiro abril” – Chico Buarque e Ruy Guerra na letra de Fado Tropical. A música está no álbum Calabar, O Elogio da Traição, lançado em 1973 e fortemente atingido pela ação da Censura Federal.

O golpe de 1964 começou em Minas Gerais. Na madrugada do dia 31 de março, o general Olímpio Mourão Filho mandou seus tanques para o Rio de Janeiro. Mas a sessão do Congresso Nacional que declarou vaga a Presidência da República ocorreu no dia seguinte, primeiro de abril.

Até então, João Goulart permanecia presidente. Ele estava no Rio de Janeiro, voou para Brasília e depois para Porto Alegre. Foi no Rio Grande do Sul que, divergindo do ex-governador Leonel Brizola, seu cunhado, decidiu que não haveria resistência. O golpe estava sacramentado.

Quando Jango deixou Brasília e voou para o Rio Grande do Sul, foi o senador Auro de Moura Andrade, presidente do Congresso, que declarou: “A Nação está acéfala”. Disse em seguida: “Declaro vaga a Presidência da República”, enquanto, ao fundo, aliados de Jango gritavam “fascistas, fascistas”.

O poder que o general Mourão pensava ter quando deslocou a tropa de Juiz de Fora para o Rio logo se esfacelou. Dentro do Exército, havia um grupo mais forte, mais articulado e menos ingênuo, e foi esse grupo que de fato assumiu o controle da situação e deu início à ditadura militar.

As grandes lideranças civis do golpe também foram colocadas em seu devido lugar. Nem Magalhães Pinto, governador de Minas Gerais, nem Carlos Lacerda, governador do Rio de Janeiro (ainda Estado da Guanabara). Escanteados, os dois queriam, mas tinham chance zero de tornar real o sonho da Presidência da República.

O golpe dentro do golpe. Ou dois golpes. Com muita propriedade, assim era explicada por Leonel Brizola a deposição do presidente João Goulart naquele início de abril de 1964. O segundo golpe foi o que prevaleceu, colocando no poder o até então legalista general Castelo Branco, primeiro presidente do ciclo militar.

Revolução de 31 de Março. Revolução Democrática de 31 de Março. Oficialmente, assim era chamado o golpe militar que depôs João Goulart. Assim era dito nos veículos de comunicação, na propaganda oficial. Assim era ensinado nas escolas. Mas, felizmente, esse tempo passou: não foi revolução, foi golpe militar mesmo.

Golpe militar de 31 de março de 1964. 31 de março. Essa foi a data que ficou. Neste domingo, 31 de março de 2024, fez, portanto, 60 anos. Mas, se formos precisos, a data é outra: primeiro de abril de 1964. Reza a lenda, porém, que os militares evitaram a adoção do primeiro de abril. Não ficava bem. Afinal, era o Dia da Mentira.