Kennedy foi assassinado há 60 anos. Onde você estava?

Nesta quarta-feira, 22 de novembro de 2023, faz 60 anos que o presidente americano John Kennedy foi assassinado durante uma visita à cidade texana de Dallas. A foto que ilustra a coluna, feita a partir das imagens do cinegrafista amador Abraham Zapruder, mostra o exato momento em que os tiros atingem a cabeça do presidente. Onde você estava quando JFK foi assassinado?

Então eles explodiram sua cabeça enquanto ele ainda estava no carro
Abatido como um cachorro em plena luz do dia (Bob Dylan)

Eu tinha apenas quatro anos e meio, mas nunca apaguei da memória. No início da tarde daquele 22 de novembro de 1963, meu pai sintonizou a Voz da América para acompanhar o noticiário. A lembrança ainda é nítida. O rádio Philips em cima de um pequeno móvel no canto da sala, o som cheio dos ruídos da transmissão em ondas curtas. Costumo dizer que os americanos entraram na minha vida ali. Ou que é o primeiro grande fato histórico de que me lembro.

Meu pai era comunista, mas admirava os irmãos Kennedy (Bobby mais do que John) e seus esforços na direção de um sonho: uma América que não mais separasse os homens pela cor da pele. Ainda que fosse paradoxal, também lhe era atraente a solidez da democracia americana. Talvez como contraponto às nossas históricas instabilidades. Como quem intuía que, dali a pouco mais de quatro meses, os militares deporiam um presidente civil e mergulhariam o Brasil em duas décadas de governos de exceção.

Perguntas que atravessaram o tempo que nos separa do assassinato de Kennedy continuam sem respostas. No início dos anos 1990, ao realizar o filme JFK, o diretor Oliver Stone nos remeteu a elas:

Quem, de fato, matou Kennedy? Todos os tiros foram disparados por Lee Harvey Oswald? Uma grande conspiração está por trás do assassinato? Quem ordenara a execução? O governo cubano? A direita americana? A CIA? A máfia? O que levou Jack Ruby, o dono de uma casa de prostituição, a matar Oswald diante das câmeras e da polícia?

Vendo de longe, tenho a impressão de que o mito Kennedy é muito maior do que a realidade. Vivo e reeleito, JFK manteria os Estados Unidos no Vietnã do mesmo modo que apoiaria as ditaduras da América do Sul. O irmão Bobby, morto em 1968, parecia mais avançado, mas nunca saberemos. O fato é que a figura que o mundo construiu não pode ser desassociada da sua dimensão trágica. É esta que atravessa o tempo.

Em 2008, antes que se completasse meio século do assassinato de Kennedy, os Estados Unidos tiveram em Obama seu primeiro presidente afrodescendente, o que era impensável em 1963.

Em 2016, no centenário do seu nascimento, tinham Donald Trump na presidência, algo fora de qualquer previsão um ano antes.

Em 2023, nos 60 anos do assassinato de Kennedy, a possibilidade de um retorno de Trump ameaça a solidez da democracia americana.

Na minha memória afetiva, JFK ainda está guardado como evocação de uma época de muitos conflitos e grandes esperanças.