Lanny Gordin não tinha pátria, mas escreveu capítulo fundamental da história da guitarra brasileira

O pai era de origem russa. A mãe era de origem polonesa. O menino nasceu em Xangai, na China, e passou parte da infância em Tel Aviv, Israel. Veio para o Brasil aos seis anos e daqui não saiu mais. O nome: Alexander Gordin. O nome artístico: Lanny Gordin. Ou, simplesmente, Lanny.

No início dos anos 1970, nas incríveis audições musicais da nossa adolescência, a gente dizia que Lanny era apátrida. A sua guitarra, presente em vários discos que ouvíamos, nos arrebatava. Era do rock, era do jazz, mas também escrevia um capítulo fundamental da história do instrumento no Brasil.

Lanny morreu nesta terça-feira, 28 de novembro de 2023. Morreu num hospital em São Paulo no mesmo dia em que completou 72 anos. Sua vida foi difícil: o uso excessivo de ácido, o diagnóstico de esquizofrenia, os sanatórios, a impossibilidade de se manter ativo, os últimos anos na condição de acamado.

Os tropicalistas tiveram junto deles dois grandes guitarristas: Sérgio Dias, dos Mutantes, e Lanny Gordin. Lanny foi o mais importante. “O guitarrista crucial do Tropicalismo”, como muitíssimo bem – e com grande justiça – definiu Caetano Veloso nas redes sociais, ao saber da morte do músico.

Você pode não saber da existência de Lanny. Você pode nunca ter se ligado nos sons por ele produzidos. Você pode ser daqueles ouvintes que não se interessam por isso. Mas, se você ouviu os discos que Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa gravaram entre o final da década de 1960 e o início da de 1970, com certeza a guitarra absolutamente singular de Lanny Gordin entrou pelos seus ouvidos.

Gal, segundo álbum de Gal Costa, de 1969. Gilberto Gil e Caetano Veloso, ambos de 1969, lançados quando eles foram para o exílio em Londres. Os discos não têm título. O de Caetano ficou conhecido como Álbum Branco. Le-Gal, que Gal lançou em 1970, e o duplo ao vivo Fa-tal, de 1971. Expresso 2222, de Gil, e Araçá Azul, de Caetano, ambos de 1972. Quer ouvir a guitarra de Lanny? Ouça esses álbuns.

Mas não posso deixar de mencionar o primeiro LP de Jards Macalé, lançado em 1972. Macalé, voz e violão. Lanny Gordin, baixo e violão. Tuty Moreno, bateria. Um power trio inacreditavelmente fodástico num disco extraordinário.

Sem qualquer exagero, afirmo que é de Lanny Gordin um dos solos de guitarra mais importantes da história da música popular brasileira. Refiro-me à sua presença em Atrás do Trio Elétrico, de Caetano Veloso. Há o solo do instrumento em si e há a música que deu projeção nacional não apenas à invenção de Dodô e Osmar, mas ao carnaval que os baianos realizavam nas ruas de Salvador.

No experimental Araçá Azul, Caetano transforma em rock o samba Quero Essa Mulher Assim Mesmo, de Monsueto. É um negócio alucinado, como alucinado é o solo de Lanny. Ao lado da voz de Caetano, há o power trio formado por Lanny, Tuty Moreno na bateria e Moacyr Albuquerque no baixo.

A guitarra da banda 2222, de Gil, é de Lanny. A guitarra de Back in Bahia é de Lanny. No estúdio e nos palcos do Brasil do ano de 1972. A guitarra de Hotel das Estrelas, com Gal, é de Lanny. E todos aqueles sons únicos do show Fa-tal, que arrebatou a plateia do Rio em 1971.

Lanny Gordin, ainda adolescente, aprendeu com Hermeto Pascoal o que é improvisação jazzística. Ficou siderado com Jimi Hendrix. Passou pela Jovem Guarda, pelo Tropicalismo, tocou e gravou com muita gente. Ainda muito cedo, entrou numa viagem sem volta. Teve uma história de êxitos e insucessos. Por mais de 50 anos, nunca saiu da nossa memória. Sigamos ouvindo sua grande guitarra brasileira.