Martin Scorsese fala de Dylan e da América num filme muito louco e um pouco mentiroso

Revi Rolling Thunder Revue: a Bob Dylan Story. A última vez foi em 2019, quando a Netflix disponibilizou o filme. Bom mesmo era ter visto no cinema, numa telona tomada por essas imagens captadas originalmente em 16 milímetros e restauradas, com linda granulação, quando caíram nas mãos de Martin Scorsese.

Cinco anos separam a primeira vez que vi Rolling Thunder Revue dessa agora. Há muita coisa no meio, inclusive a tragédia da pandemia. Bob Dylan tinha 78 anos, logo vai fazer 83. Lá, em 2019, como cá, em 2024, não me resta dúvida: esse cara foi merecedor, sim, do prêmio Nobel de literatura.

A poesia que há, por exemplo, na letra de A Hard Rain’s A-Gonna Fall, que Dylan compôs e gravou em 1962, quando tinha somente 21 anos, não é coisa de compositor e cantor de rock, não. Acreditem: é coisa de poeta. Segue a performance “matadora” que está no filme.

Martin Scorsese é homem do cinema e da música. Ele estava na equipe de Woodstock e na de Elvis on Tour. Ele próprio dirigiu The Last Waltz, ainda nos anos 1970. Foi quando registrou o Bob Dylan que cantava Forever Young no concerto de despedida do grupo The Band.

No início dos anos 2000, Scorsese tirou seu primeiro (e extenso) retrato de Dylan, o documentário No Direction Home. Tão longo (quatro horas) quanto irresistível. O músico visto nos primeiros anos de carreira, entre o instante em que conquista dimensão nacional e o momento em que rompe com o folk e adota o elétrico. Um recorte que parece percorrer todo o Dylan, posto que toca nas questões cruciais do artista.

Martin Scorsese passou pelos Rolling Stones (Shine a Light) e pelo beatle George Harrison (Living in the Material World) antes de voltar a Bob Dylan em Rolling Thunder Revue: a Bob Dylan Story.

Vejam o título. É story, não é history. Ou: mentiras que se sobrepõem a verdades. Ou: pode parecer, mas nem tudo é verdade. Rolling Thunder Revue é um documentário? Rolling Thunder Revue (como o Zelig de Woody Allen) tem feição, mas não é um documentário? Rolling Thunder Revue é fake? Nada disso. Ou tudo isso. Rolling Thunder Revue é uma grande e alucinante experiência de cinema e música!

Vou resumir assim: o filme começa com Richard Nixon e termina com Jimmy Carter. A América do Watergate e a América dos direitos humanos. Dois lados da América ali em torno dos 200 anos da independência. E nem Gerald Ford, um presidente de direita, ousava dizer que era imbrochável.

Dylan, entre um e outro, sai em turnê num ônibus. Ele e um bando de músicos, encontrando outros artistas nas cidades por onde passam. Pequenas plateias, apesar do tamanho de Dylan. Um show que remete a circos e ciganos.

Assim foi a Rolling Thunder. O Dylan velho, registrado por Scorsese, não lembra direito. Ou finge que não lembra, não dá importância. Inventa histórias. Conta mentiras, provavelmente. Faz insinuações, fala mal de Joan Baez, que fora sua musa e está com ele no palco.

Martin Scorsese fala de Dylan e da América num filme muito louco e um pouco mentiroso

Rolling Thunder Revue: a Bob Dylan Story foi construído a partir de riquíssimo material de arquivo. Os registros feitos para um filme que nunca existiu. Registros incríveis de bastidores e palcos. Bob Dylan (inspirado no Kiss!) com o rosto todo pintado, cantando como nunca cantou. Nem voltaria a cantar. E tem, incorporado à turnê, o poeta Allen Ginsberg, símbolo da contracultura, que conduz uma parte da narrativa. E, ainda, o violino mimético (assim definido na época) de Scarlet Rivera.

O filme de Scorsese é meio louco. Fala de música, claro. Dialoga com o cinema, também. É um road movie. Parece um daqueles documentários dos anos 1970 (Mad Dogs and Englishman), mas não é. Comenta o hoje revendo o ontem. Encanta olhos e ouvidos. Ao menos dos que seguem Dylan de perto.

Bob Dylan tinha 30 e poucos anos na época da turnê Rolling Thunder. 78 quando Rolling Thunder Revue, o filme, chegou ao público. O bardo passou a vida buscando o que nunca encontrará. No final, sobre um fundo vermelho, Martin Scorsese passa rapidamente por todas (todas mesmo!) as turnês que o artista fez desde então. Ao mostrar datas e locais, ano a ano, o filme se aproxima fortemente do espectador que já teve a experiência de ver Dylan ao vivo.

Eu estou lá: São Paulo, pista de atletismo do Ibirapuera, 13 de abril de 1998. Bob Dylan abrindo para os Rolling Stones.