Pequeno guia para ouvir Beatles ábum a álbum

Todo mundo conhece os Beatles, mas ainda tem muita gente – mesmo contemporâneos – que nunca parou para ouvir o trabalho do grupo álbum a álbum. Esse post é um pequeno guia para ouvir os Beatles a partir da discografia deles, que vai de 1963 a 1970. Ficou mais fácil, porque está tudo disponível nos serviços de streaming.

Pequeno guia para ouvir Beatles ábum a álbum

PLEASE PLEASE ME, 1963

Uma faixa muito lembrada: I Saw Her Standing There.

Uma faixa pouco lembrada: Chains.

Primeiro álbum dos Beatles, lançado em março de 1963.

A gravação, produzida por George Martin, foi feita em cerca de dez horas.

Há canções assinadas por Lennon e McCartney e covers que os Beatles faziam nos seus shows.

Esse disco de estreia traz o quarteto ainda em estado bruto.

No Brasil, o álbum só foi lançado com capa e repertório originais em meados da década de 1970.

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WITH THE BEATLES, 1963

Uma faixa muito lembrada: All My Loving.

Uma faixa pouco lembrada: All I’ve Got To Do.

Segundo álbum dos Beatles, lançado em novembro de 1963, oito meses após o disco de estreia.

Traz, pela primeira vez, uma canção de George Harrison gravada pelo grupo (Don’t Bother Me).

Canções de Lennon e McCartney e covers compõem o repertório.

Três meses depois do lançamento desse disco, os Beatles conquistariam a América.

E o mundo.

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A HARD DAY’S NIGHT, 1964

Uma faixa muito lembrada: A Hard Day’s Night.

Uma faixa pouco lembrada: When I Get Home.

Lançado em julho de 1964, é o terceiro álbum dos Beatles.

É o único somente com canções de Lennon e McCartney.

No lado A, traz as músicas do filme A Hard Day’s Night, de Richard Lester, que mostra, em tom documental, um dia na vida do grupo.

Nesse disco, os Beatles dão claros sinais de amadurecimento.

Tem canções que se tornaram grandes sucessos, como And I Love Her e Can’t Buy Me Love.

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BEATLES FOR SALE, 1964

Uma faixa muito lembrada: Eight Days a Week.

Uma faixa pouco lembrada: Baby’s in Black.

Lançado em dezembro de 1964.

É o quarto álbum dos Beatles. Muita gente diz que foi gravado de olho no mercado americano.

O repertório mistura novas canções de Lennon e McCartney com covers de músicas que o grupo tocava ao vivo.

No Brasil, foi lançado com o título de Beatles 65.

Tinha capa diferente da original e duas faixas a menos.

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HELP!, 1965

Uma faixa muito lembrada: Help!.

Uma faixa pouco lembrada: Tell Me What You See.

Lançado em agosto de 1965, é o quinto álbum dos Beatles.

Contém as músicas ouvidas no filme Help!, o segundo do quarteto.

Composta por Paul McCartney, Yesterday, que está no Lado B do disco e não toca no filme, se transformou na canção mais regravada de todos os tempos.

Nesse álbum, os Beatles gravam covers pela última vez.

Em seguida, se dedicariam totalmente ao repertório autoral.

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RUBBER SOUL, 1965

Uma faixa muito lembrada: In My Life.

Uma faixa pouco lembrada: Wait.

Lançado em dezembro de 1965.

O disco pode ser assim resumido: os Beatles diante de novos caminhos.

Ou: o fenômeno popular da beatlemania está passando, é hora de experimentar.

Drive My Car, Norwegian Wood, Nowhere Man, Michelle, Girl, If I Needed Someone.

Estão todas no Rubber Soul.

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REVOLVER, 1966

Uma faixa muito lembrada: Eleanor Rigby.

Uma faixa pouco lembrada: Dr. Robert.

Lançado em agosto de 1966.

As mudanças esboçadas no disco anterior, Rubber Soul, se consolidam com o lançamento do Revolver, sétimo álbum dos Beatles.

Apenas três anos e poucos meses após o disco de estreia (Please Please Me, março de 1963), o quarteto não é mais o mesmo.

E é muito melhor.

Taxman, I’m Only Sleeping, Yellow Submarine, Here, There and Everywhere, For No One, Got To Get You Into My Life, Tomorrow Never Knows.

Todas estão no Revolver.

A capa foi desenhada por Klaus Voorman.

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SGT. PEPPER’S LONELY HEARTS CLUB BAND, 1967

Uma faixa muito lembrada: A Day in the Life.

Uma faixa pouco lembrada: Lovely Rita.

Lançado em junho de 1967.

Sgt. Pepper é o disco mais importante dos Beatles. O mais ousado, o mais influente, o mais marcante. Aparece quase sempre como o disco mais importante do rock.

O álbum é uma suíte pop com 13 faixas coladas.

Nasceu quando os Beatles gravaram Strawberry Fields Forever (de Lennon) e Penny Lane (de McCartney). As duas lembranças da infância em Liverpool ficaram de fora do LP, saíram em single, mas estão para sempre associadas ao impulso criativo que gerou o Pepper.

Sgt. Pepper é disco de uma banda. Se há, porém, alguém que pode ser de fato mencionado como autor do projeto, esse alguém é Paul McCartney.

A ideia é mais dele do que dos outros. O conceito, a capa. A predominância do autor no repertório. É fruto do interesse de Paul pelos eruditos contemporâneos, pela arte de vanguarda, pelo que ele viu e ouviu na Londres da sua juventude.

A despeito disso, há grandes momentos autorais de John Lennon (Lucy, Mr. Kite) e um número de música indiana que insere George Harrison no projeto de forma brilhante. Ringo Starr faz seu número com uma pequena ajuda dos amigos.

O Pepper é diferente do que os Beatles faziam até então, apesar dos sinais claros que estavam no Revolver. É, a um só tempo, novo e velho. Ou vai buscar o novo no velho.

Sempre me pareceu assim. Rompe, define caminhos, diz como vai ser dali por diante. Mas evoca a bandinha da cidade interiorana, o espetáculo de circo, as cordas e a harpa a acompanhar um lied de um tempo remoto, o ritmo americano que embalava o pai de Paul.

Tudo dando forma a um produto que era, naquele junho de 1967, o que havia de mais contemporâneo no rock.

O ponto alto, a coda dessa grande suíte pop, se chama A Day in the Life. Duas canções distintas (uma de John, outra de Paul) fundidas como se fossem uma só.

A orquestra de muitos músicos, soando atonal, produzindo música aleatória, conduz o ouvinte ao majestoso acorde final.

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MAGICAL MYSTERY TOUR, 1967

Uma faixa muito lembrada: Strawberry Fields Forever.

Uma faixa pouco lembrada: Blue Jay Way.

No Reino Unido, um EP duplo (seis faixas) lançado em dezembro de 1967 com as músicas ouvidas no filme homônimo produzido para a televisão.

Nos Estados Unidos, um LP lançado em novembro de 1967.

O LP, mais tarde incorporado à discografia oficial da banda, uniu o conteúdo do EP duplo a singles do ano de 1967.

Magical Mystery Tour mostra os Beatles no auge da “viagem” do Sgt. Pepper.

Tem canções memoráveis:

The Fool on the Hill, I Am the Walrus, Hello Goodbye, Penny Lane, All You Need Is Love.

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THE BEATLES (THE WHITE ALBUM), 1968

Uma faixa muito lembrada: While My Guitar Gently Weeps.

Uma faixa pouco lembrada: Honey Pie.

Lançado em novembro de 1968.

O maestro e produtor George Martin, o quinto beatle, considerava o álbum excessivo.

Dois discos! 30 faixas! Era muito! – dizia Martin.

Paul McCartney nunca gostou dessa conversa.

É o Álbum Branco dos Beatles! Ponto final! – respondia Paul.

Fico com Paul.

O White Album é o oposto do Sgt. Pepper, o disco que os Beatles fizeram um ano antes.

O Pepper tem unidade, a despeito da diversidade que há nas canções. É uma suíte pop com começo, meio e fim para ser ouvida integralmente. Traz uma sonoridade inovadora para o universo do pop/rock.

O Álbum Branco não tem essa unidade. É desigual. Uma extensa coleção de canções díspares.

Há excesso de elementos na capa do Pepper.

A do Álbum Branco é toda branca.

O título do Pepper é quilométrico: Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

O Álbum Branco nem título tem. Apenas o nome da banda: The Beatles.

Muitos dizem que o disco flagra o inicio dos estertores dos Beatles.

O próprio Lennon disse, certa vez, que era “John e a banda, Paul e a banda, George e a banda, Ringo e a banda”.

Ele devia estar com a razão. Mas, paradoxalmente, isso não faz com que o álbum seja menos Beatles. Eles estão no auge da criatividade e oferecem um repertório irresistível que vai da ingenuidade de Ob-la-di Ob-la-da, de Paul, à radical experiência de John (e Yoko) com música concreta em Revolution #9.

São extremos.

Entre eles, tudo é possível.

Helter Skelter, de Paul, antecipa o metal.

Julia, de John, é apenas uma terna canção de amor filial.

Em While My Guitar Gently Weeps, George leva Eric Clapton, um deus da guitarra, para tocar com os Beatles.

Em Blackbird, Paul canta pelos direitos civis.

Em Yer Blues, John cita Dylan.

Em Honey Pie, Paul faz a música do tempo em que seu pai atuava como músico amador.

Em Revolution, John responde aos manifestantes divididos entre a violência e a não violência.

Há um rock que mistura Berry com os Beach Boys para dialogar com os soviéticos.

Há um “parabéns pra você” criado coletivamente após uma alegre sessão de cinema.

Há um “boa noite, durma bem”.

Há um convite ao sexo: “por que não fazemos aqui mesmo na estrada?”.

Há crítica social com porquinhos inspirada em Orwell.

Há até uma canção de amor dedicada a uma sheepdog de nome Martha.

Há tantas outras coisas.

Algumas, há mais de meio século, provocavam uma certa estranheza. Hoje, não mais. Ou será que sim?

O ano de 1968 foi marcante.

Os Beatles do Álbum Branco são os Beatles de 1968.

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YELLOW SUBMARINE, 1969

Lançado em fevereiro de 1969, contém a trilha sonora do desenho animado Yellow Submarine.

O lado A tem seis canções dos Beatles, quatro são inéditas.

O lado B reúne temas instrumentais que George Martin fez para a animação.

Lennon, McCartney e Harrison dividiram as canções inéditas.

John fez uma, Paul também fez uma, George assinou duas.

Se eu tivesse que descartar um disco dos Beatles, seria este.

Mas poria no lugar a compilação Yellow Submarine Songtrack, de 1999, que tem todas as canções do grupo usadas no filme.

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ABBEY ROAD, 1969

Uma faixa muito lembrada: Something.

Uma faixa pouco lembrada: Sun King.

Lançado em setembro de 1969.

É o último disco gravado pelos Beatles, mas o penúltimo a ser lançado.

A capa, tão simples, se tornaria um ícone pop.

Antes do LP nas lojas, Here Comes the Sun chegou pelas ondas do rádio. George Harrison.

Depois, Something. Outra vez, George.

Clássicos instantâneos.

Something, uma das mais belas canções dos Beatles, escrita sob a inspiração de Ray Charles.

Come Together traz o rocker visceral que há em John Lennon.

O mesmo John que, na outra ponta, e com a ajuda de Yoko, brinda o ouvinte com a imensa beleza de Because.

Parece música clássica. Sim. Tem acordes invertidos da Sonata ao Luar, de Beethoven.

Oh! Darling é um legítimo Paul McCartney, grande baladeiro, numa performance vocal sem igual.

O lado A tem faixas soltas.

Seis. Duas de Lennon. Duas de McCartney. Uma de Harrison. Uma de Ringo. Dizem que foi concebido por John.

O lado B tem um monte de faixas. Algumas bem curtas. Um medley interminável. Ou – se quisermos – mais de um. Foi ideia de Paul.

McCartney, o melhor melodista do grupo, está completo em You Never Give Me Your Money.

Mais ainda: em Golden Slumbers, uma das mais belas entre todas as canções dos Beatles.

Tão breve e tão arrebatadora.

No final do disco, há o solo de Ringo e as guitarras de John, Paul e George, todas solando. Até hoje, é como Paul fecha seus shows.

E há o epitáfio:

No fim, o amor que você recebe é igual ao amor que você dá.

Abbey Road é um dos discos mais amados do mundo.

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LET IT BE, 1970

Uma faixa muito lembrada: Get Back.

Uma faixa pouco lembrada: For You Blue.

Penúltimo disco gravado pelos Beatles, mas o último a ser lançado, chegou às lojas em maio de 1970.

Inicialmente, seria chamado de Get Back. Acabou se transformando em Let It Be.

George Martin gravou, mas não assinou a produção. Ficou para Phil Spector.

Paul McCartney não gostou.

É disco controvertido.

É retrato expressivo do fim dos Beatles.

Let It Be, Across The Universe, The Long and Winding Road.

Tem grandes canções.

As músicas que foram lançadas em compactos e não estão nesses álbuns foram reunidas, no advento do CD, num álbum-duplo chamado Past Masters.