Tem álbum novo de Chico Buarque na praça! E com Mônica Salmaso!

O álbum duplo Que tal um samba? (Foto/Divulgação Biscoito Fino), de Chico Buarque com Mônica Salmaso, está nas plataformas digitais desde sexta-feira, 24 de novembro de 2023. É o registro, na íntegra, do show com o qual Chico e Mônica percorreram o Brasil a partir de setembro de 2022. Espera-se que, antes do final do ano, a gravadora Biscoito Fino disponibilize a edição física e também o show em DVD.

A gravação foi feita em fevereiro de 2023, quando a turnê passou pelo Rio de Janeiro. A estreia foi em João Pessoa, nos dias seis e sete de setembro de 2022, no Teatro Pedra do Reino.

O show gravado está ligeiramente diferente do que vimos na estreia. Não tem Desalento, Nina, Blues Pra Bia e Sabiá. Já Bastidores e Mil Perdões não estavam no roteiro original. O blues Mil Perdões entrou como homenagem a Gal Costa, que morreu em novembro do ano passado.

O show de Chico Buarque com Mônica Salmaso estreou no momento em que Jair Bolsonaro fazia e acontecia para tentar se reeleger presidente. No palco, Que tal um samba? dava conta do momento que o Brasil vivia na campanha eleitoral de 2022. Sinceramente, não sei o que teria sido da turnê se Lula tivesse perdido a eleição.

Nesta segunda-feira (27), resgato parte do que escrevi depois de ver a estreia do show na noite de seis de setembro de 2022, em João Pessoa:

Quatro anos depois de Caravanas, Chico Buarque volta aos palcos, tendo Mônica Salmaso como convidada muito especial. O set list era guardado em segredo. Com a minha bola de cristal, fiquei pensando nas gravações em que Chico juntou sua voz a vozes femininas. Noite dos Mascarados (com Jane), Sem Fantasia (com Cristina, depois com Maria Bethânia), João e Maria (com Nara Leão), Maninha (com Miúcha), Biscate (com Gal Costa), Imagina (com a própria Mônica Salmaso).

Estão todas lá. Lindas. Comoventes. Arrebatadoras. Dos remotos anos 1960 – Sem Fantasia, Noite dos Mascarados – até os anos 2000 (Imagina). Sem Fantasia veio na primeira parte do show. A voz da mulher. A voz do homem. As duas vozes no final. Noite dos Mascarados ficou para o bis. Uma marchinha carnavalesca. As duas, fortemente evocativas de um tempo em que Chico, um jovem de vinte e poucos anos, surgiu para fazer parte do grupo dos nossos melhores compositores populares.

Maninha traz a lembrança de Miúcha, irmã de Chico que não está mais entre nós. Ela e ele gravaram num dos dois discos que Antônio Carlos Jobim fez com Miúcha. Na Paraíba, mais do que em qualquer outro lugar, João e Maria remete a Sivuca, que, em 1947, compôs a melodia dessa valsa que só ganharia a letra de Chico 30 anos mais tarde. Imagina, primeira música composta por Tom Jobim, não poderia ficar de fora. Afinal, foi com Mônica que Chico fez a gravação para o álbum Carioca, lançado em 2006.

Tom Jobim também é lembrado quando Mônica recebe Chico no palco, enquanto canta Paratodos. Foi nessa música que Chico chamou Tom, um dos seus mestres, de Maestro Soberano.

Quem abre o show é Mônica Salmaso. Faz seis números antes da entrada de Chico. Todos Juntos, dos Saltimbancos, é a primeira música. Traz logo uma mensagem para esse tempo estranho em que estamos vivendo: “Todos juntos somos fortes/Não há nada pra temer”. Há outras mensagens que vão costurando o programa: a ameaça do homem na letra de Passaredo e a notícia positiva na letra de Bom Tempo. Há Mar e Lua, uma joia pouco lembrada, e esse primor que é Beatriz, da parceria de Chico com Edu Lobo.

Na primeira sequência em que Chico Buarque e Mônica Salmaso ficam juntos no palco, temos O Velho Francisco, da década de 1980, e Sinhá (parceria com João Bosco), que, com pouco mais de 10 anos, já é um clássico. Sozinho, Chico resgata Sob Medida, que Simone gravou há mais de 40 anos. Tipo um Baião é bem recente. Injuriado e Uma Canção Desnaturada (da Ópera do Malandro) trazem Mônica de volta ao palco.

Morro Dois Irmãos e Futuros Amantes falam do Rio de Janeiro. Assentamento, da questão agrária. O Meu Guri e As Caravanas, das nossas desigualdades, do nosso apartheid. É quando o show se encaminha para o final com Que Tal um Samba?, lançada em 2022 num single. Chico e Mônica revisitam um pouco do Samba da Benção, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, e do Samba da Minha Terra, de Dorival Caymmi. É o desfecho perfeito, antes da volta para o bis.

Chico e Mônica estão irretocáveis no palco. Ele, com a sua costumeira contenção. Ela, com uma alegria esfuziante. Um imenso compositor e uma grande cantora. Ele, a admirar a beleza da voz. Ela, embevecida com a força extraordinária das canções. Precisamos de alegria e crença no futuro. Chico e Mônica fazem isso com muita elegância.