Camila Esposte
Láuriston Pinheiro

A Globo vendeu duas de suas sedes: é bom ou mau sinal?

Venda de ativos do conglomerado já passa de 2,4 bilhões de reais

No dia 17 deste mês, o fundo imobiliário Vinci Offices FII informou a aquisição de 100% da sede da Globo em São Paulo. Pelo imóvel de mais de 43 mil metros quadrados de terreno, e com 56 mil metros quadrados de área construída, localizado na valorizada região da Av. Berrini, a Globo vai receber cerca de R$ 552 milhões. A venda foi concluída no formato conhecido por “sale & leaseback“: isto significa que a Globo vendeu o imóvel, mas permanece como inquilina. No contrato, o grupo passa a pagar mensalmente à empresa gestora do Fundo – a Vinci Partners Real Estate, durante os próximos 15 anos, um aluguel estimado em R$ 3,6 milhões. A negociação repetiu o mesmo modelo aplicado em dezembro de 2020, quando a Globo vendeu por R$ 37,5 milhões a sua sede no Rio de Janeiro, no bairro do Jardim Botânico, para o fundo Alianza Trust Renda Imobiliária, administrado pelo BTG Pactual. Na ocasião, foi firmada a garantia de sua locação pelo período mínimo de 10 anos, por R$ 250 mil mensais de aluguel, corrigidos anualmente pelo IPCA.

Mas estes não foram os únicos imóveis vendidos. No início de dezembro,houve a venda de 17 torres de TV e 16 imóveis para o grupo IHS Towers, da Nigéria, por cerca de R$ 200 milhões. Em outubro, o moderno Data Center, criado para as Olimpíadas de 2016, foi arrematado pela Piemonte Holding por 300 milhões, após disputa acirrada com outros demais interessados. Faça as contas: se somarmos aos valores acima a venda da gravadora Som Livre para a Sony Music, negociada por 1,4 bilhão de reais, em abril deste ano, o caixa da “capitalização” passa dos R$ 2,4 bilhões, em números absolutos. Nada mal para quem parece estar “mal das pernas” ou “precisando da grana do governo”, não é? Erra feio quem enxerga a saúde financeira da Globo a partir do prisma das rusgas e atritos com as cabeças do poder executivo federal. O fato é que a Globo demonstra ter um caixa muito além do que se poderia chamar de confortável. Sim, sabe-se que a dívida total do grupo chega 1 bilhão de dólares, mas a sua posição financeira em caixa, já no meio do ano, era quase duas vezes e meia maior que esse passivo, ultrapassando R$ 12,5 bilhões.

Na prática, mesmo com “vida difícil” para toda empresa de mídia do século passado, o que estamos testemunhando vai além da queda de receitas ou de audiência, e fala direto sobre as mudanças profundas no DNA do conglomerado. As vendas de ativos traz benefícios mensuráveis não apenas na esfera fiscal e financeira, mas, principalmente, nos aportes necessários para a expansão de negócios e complexas operações, onde o foco está no mercado digital, através de uma estratégia D2C (Direct to Consumer, direto ao consumidor final), a essência de todo e-business de escala exponencial. Em 2017 e 2018, os custos da Globo já eram maiores do que suas receitas. Foi o manuseio eficaz de verbas no mercado financeiro que fez os balanços desses dois anos virarem no azul. A partir de 2019, quando já estava em andamento uma ampla reestruturação, chamada na época de projeto UmaSóGlobo, vieram as reduções de departamentos, as demissões “apocalípticas” (foram dezenas de milhares, incluindo astros e estrelas da telinha) e o alinhamento com uma nova estratégia de transformação digital, tanto nos modos de produção quanto de consumo do conteúdo.

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Atropelada pela pandemia, assim como todas as empresas do planeta, a Globo aprofundou o corte de despesas, buscou agressivamente mais geração de caixa e concentrou os investimentos na operação de streaming do Globoplay, sob pena de perder o bonde da história, ou o trem-bala da disrupção digital. Os olhos da Globo estão, há muito, voltados para sua posição no mercado mundial. Na disputa pelo público de streaming, por exemplo, onde se engalfinham colossos como Netflix, Disney+, AppleTV etc, estima-se que a Globoplay, se seguir crescendo bem a cada ano, só venha a dar lucro em 2024 ou 2025. Até lá, a Globo não pode sequer pensar em “tirar o pé”. Nesse segmento, daqui a um par de anos, quem estiver estabelecido, e bem, fica. Depois disso, já era. Restará pouquíssima viabilidade comercial para eventuais novos entrantes. Paralelamente, nestas movimentações simultâneas por consolidação e flexibilidade, a Globo migra seus dados para a “nuvem”, em parceria tecnológica taylor made com o Google (daí a obsolescência do tal Data Center de 2016…); começa a andar com sua divisão de games, o Player1 Gaming Group; e acelera a vinda de 100 novas startups dos Estados Unidos para o Brasil, através da Globo Ventures, braço independente de investimentos com portfólio de empresas digitais e startups. É “sinergia” que se fala, né?

Agora, precisamos falar de TV aberta: “Ah, mas a Globo está se acabando, né?”, alguém me perguntou, ainda esta semana. Bem, o anúncio do “fim da Globo” é algo que não deve ser, digamos, tão precipitado. Afinal, os números, ainda não consolidados, de 2021 apontam para um crescimento de 18% a 20% do faturamento em relação ao ano anterior. Portanto, e por tudo o que foi dito acima, não está caracterizado um “pé na cova” corporativo, convenhamos. Segundo afirmou Manuel Belmar, diretor-geral de finanças da Globo, em entrevista ao Valor Econômico, o plano para 2022 é investir 50% a mais em conteúdo, em comparação com 2021, o que dá R$ 6,7 bilhões. Espera-se um bom retorno com a venda de novelas, séries, realities e especiais para outras plataformas no exterior. Em tecnologia, deverá ser mantido o volume de investimento deste ano, 1 bilhão de reais. Após inserir uma pergunta no título desta coluna, reproduzo uma outra, ouvida com alguma frequência, que coloco como um teaser do que pretendo abordar em uma próxima: “E se Bolsonaro decidir cassar a concessão da Globo?”