Estudo identifica Covid-19 em 48% dos jogadores do Brasileirão

Pesquisa foi realizada junto a 625 jogadores de 20 clubes.

Foto: Anderson Stevens/ Sport Recife
Foto: Anderson Stevens/ Sport Recife

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revelou que 48% dos jogadores da série A do Campeonato Brasileiro 2020 – o Brasileirão – foram infectados pela Covid-19. A pesquisa “A Covid-19 no campeonato brasileiro de futebol”, publicada recentemente no periódico Brazilian Journal of Development, foi realizada junto a 625 jogadores de 20 clubes, com idade média de 25 anos. Ao todo, 302 atletas testaram positivo no exame RT-PCR realizado pelos respectivos clubes.

De acordo com o pesquisador do Departamento de Fisiologia e Patologia da UFPB, o virologista Marcelo Moreno, o levantamento revelou um alto risco para essa atividade durante a pandemia, cerca de 13 vezes maior do que o índice de infecção registrado, no mesmo período, para a população brasileira em geral, estimado em 3,6% (7,7 milhões de casos confirmados em uma população de 211,8 milhões para 2020).

Para o professor Marcelo Moreno, essa atividade esportiva deveria ter sido interrompida durante a pandemia em virtude dessa maior propensão ao contágio. “Os clubes se tornaram centros superdisseminadores, não somente entre os que convivem em suas dependências, como também com os externos, pois os jogadores infectados circulam em seus ambientes familiares e sociais. Quantas pessoas esses atletas podem ter infectado?”, destacou o professor.

O estudo da UFPB e da UFRJ revelou que a maior quantidade de casos confirmados de Covid ocorreu no time carioca Fluminense, com 26 dos 27 jogadores infectados e no Athlético Paranaense, com 20 entre 21 profissionais do time, ambos com um percentual de aproximadamente 95% de infectados. Os percentuais de infecção mais baixos – em torno de 10% – foram registrados no São Paulo, com três entre 30 jogadores, e no pernambucano Sport, com 3 casos positivos entre 29 atletas.

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Entre as hipóteses levantadas para essa diferença nos menores e maiores percentuais de infecção nos times que competem no Brasileirão, o pesquisador acredita que um dos caminhos para se obter a resposta está nas medidas adotadas por cada clube para evitar a disseminação do coronavírus. “Será que os procedimentos de contenção, como uso de máscaras ou distanciamento coletivo, foram feitos corretamente? Será que o teste PCR foi feito no intervalo correto? Por mais medidas que os times tenham tomado, claramente não foram eficientes”, destacou o professor.

Ainda segundo a análise epidemiológica realizada em conjunto com a estudante do curso de Biologia da UFPB Marina Ribeiro e com o professor do Departamento de Virologia da UFRJ Fernando Portela, apesar de não terem sido registrados casos graves da doença entre os jogadores – possivelmente por serem atletas de alto rendimento, jovens e saudáveis – esse alto percentual de infecções registrado com a concentração dos jogadores nos clubes favoreceu a disseminação do vírus também fora dos times.

Marcelo Moreno explicou ainda que é possível atribuir a incidência de casos no Brasileirão à combinação entre aglomeração nos centros de treinamento dos clubes e uma eventual vulnerabilidade imunológica à Covid-19 (e outras infecções respiratórias) que atinge atletas de alto rendimento. A prática extenuante de exercícios pode levar a uma redução nos níveis de Imunoglobulina A (IgA), proteína encontrada nas mucosas do sistema respiratório e digestivo e que protege contra infecções.