Entre Linhas

O dilema do calendário: uns querem jogar menos, outros precisam jogar mais

Ranielle Ribeiro entra no debate em semana de Data Fifa e lembra que enquanto muitos times vivem sobrecarga de jogos, outros ficam parados na maior parte do ano

Foto: Joab Medeiros/Nacional de Patos

A rodada do meio de semana do Campeonato Brasileiro foi marcada por tropeços de Atlético-MG, Flamengo, Palmeiras e Inter. Exatamente os clubes que cederam jogadores para a Seleção Brasileira e se viram privados de suas principais estrelas. Não demorou muito para o assunto preferido das rodas de debate voltar à tona: o calendário inchado do futebol brasileiro.

É uma verdade, claro. Os times citados acima passam fácil dos 70 jogos no ano. E com tantas competições (e suas cotas milionárias), se veem obrigados a ceder jogadores nas Datas Fifa, sem que os campeonatos sejam paralisados. É óbvio que algo está errado.

Ranielle Ribeiro Campinense
Ranielle Ribeiro, técnico do Campinense (Foto: Samy Oliveira / Campinense)

Do outro lado da moeda, o técnico Ranielle Ribeiro assumiu as dores da grande maiorias dos clubes brasileiros, que vivem mendigando competições para se manterem vivos. Em entrevista ao CBN Esporte Clube, da Rádio CBN João Pessoa, o treinador chamou a atenção para um fato que por vezes passa despercebido: a sobrevivência de clubes e jogadores.

O campeonato já era atropelado antes da pandemia. Times como Flamengo e Atletico-MG querem menos jogos porque jogam demais. Na nossa realidade queremos jogos. É complicado em qual lado da balança você deve ficar” frisou o treinador.

Campinense e Guarany de Sobral brigaram pela sobrevivência na Série D
Campinense e Guarany de Sobral brigaram pela sobrevivência na Série D (Foto: Samy Oliveira/Campinense)

O Campinense, por exemplo, jogou 30 vezes na temporada. Ranielle comandou o time paraibano em 27. Só para se fazer uma comparação, no mesmo período o Flamengo jogou 52 partidas. Daqui pra frente, a Raposa tem no máximo 4 jogos, se chegar à decisão da Série D. Já o Flamengo pode ter mais 22 partidas, se for à final da Copa do Brasil.

Seriam 74 jogos para um, 34 para o outro. Mais do que dobro. E isso sem falar em Seleção Brasileira, que nesse caso só atrapalha o Flamengo…

O Flamengo pode terminar a temporada com 74 jogos disputados, mais do que o dobro do Campinense
O Flamengo pode terminar a temporada com 74 jogos disputados, mais do que o dobro do Campinense

O fato é que a disparidade é ainda maior. Clubes como o Nacional de Patos, eliminado na primeira fase do Campeonato Paraibano, jogou apenas 7 partidas oficiais em 2021. O Auto Esporte, um dos clubes tradicionais do futebol paraibano, entrou em campo pela última vez há dois anos, no dia 15 de setembro de 2019, na derrota de 2 a 1 para o Confiança de Sapé na 2ª divisão estadual. A competição não foi realizada em 2020 por causa da pandemia da Covid-19.

Ranielle Ribeiro clama por um debate mais aprofundado para que clubes simplesmente não deixem de existir

O que pode ser organizado é enxugar um pouco a participação dos grandes clubes nos campeonatos estaduais. Isso não significa acabar os estaduais. Mas fazer com que os grandes só entrem na fase final”,  sugere o treinador.

O AUto Esporte não joga uma partida oficial há mais de dois anos
O Auto Esporte não joga uma partida oficial há mais de dois anos (Divulgação / Auto Esporte)

Pode ser uma solução. Os clubes sem calendário poderiam jogar mais, talvez todo o segundo semestre, brigando por uma classificação para uma fase final de estadual, enxuta. Os clubes das séries A, B e C estariam automaticamente garantidos nessa fase decisiva, que duraria no máximo um mês.

O fato é que o acesso para a terceira divisão nacional hoje é uma questão de sobrevivência. Garante um calendário mínimo de jogos, distribuídos nos dois semestres da temporada. No caso, ou sobe Campinense ou América-RN. Dois dos clubes mais tradicionais do país que vivem atolados na Série D. Aliás, o time potiguar vive um dilema ainda maior, já que não tem vaga assegurada na quarta divisão do ano que vem.

Esse é o retrato do futebol brasileiro. Uns jogando muito e de bolsos cheios. Outros, com um calendário ridículo e de pires na mão. Com a palavra, a CBF!