Craques do passado: Iedo, o artilheiro das bicicletas do Treze

Jogador foi peça fundamental no título do Treze em 2000 e fez parte de uma das duplas mais inesquecíveis da história do Galo, ao lado do seu parceiro Rincón.

Foto: Reprodução / TV Paraíba

Mick Jagger, cabeludo, artilheiro das bicicletas. Esses foram alguns dos apelidos que Iedo recebeu ao longo de sua carreira profissional de mais de 18 anos. Mas foi por conta de seu futebol aguerrido e de boa finalização, que ele ficou conhecido mesmo pelo seu nome próprio, nada comum no futebol brasileiro. E foi no Treze, que viveu grandes glórias e momentos, fora de sua terra natal, a Bahia. 

Iedo Silva Morgado Filho nasceu em Queimadas. Mas não Queimadas, ali, perto de Campina Grande. Queimadas da Bahia. E foi no Vitória, da capital, Salvador, que Iedo deu os seus primeiros passos, nas categorias de base do Leão. Pelo Rubro-Negro, se profissionalizou e venceu o campeonato baiano duas vezes, em 1989 e 1990. 

Passou por vários clubes do Nordeste até chegar no Miguelense, de Alagoas, em 2000. É aí que começa a sua história no futebol paraibano, lembra o ex-atacante. 

“Eu estava no Miguelense e enfrentei o Treze pela Copa do Nordeste. Perdemos de 3 a 2 e eu marquei os dois gols. Eu saí aplaudido pela torcida do Galo. Eu nunca me esqueço disso. Isso me marcou muito. Dias depois, o treinador Pedrinho Albuquerque me ligou, perguntando se eu queria jogar no Treze. Era uma oportunidade que eu estava esperando. Pedi a liberação do clube, dispensei três meses de salários atrasados lá e fui para o Treze, que é um clube que amo muito”, comentou o atacante.

Iedo chegou ao Galo da Borborema em um momento que não era simples. O último título estadual do clube havia sido em 1989. Tinha a responsabilidade de tirar o time do jejum de títulos. E conseguiu, conquistando uma taça histórica, depois de o time levar os dois turnos do Campeonato Paraibano. Iedo formou uma das duplas de ataque mais inesquecíveis da história do Galo, ao lado de Rincón.

“O time do Treze era muito bom. Eu pensava que, quando cheguei, o Treze não precisava de um atacante. Mas eu coloquei na minha cabeça: nós já tínhamos artilheiro, eu não queria saber quem ia marcar mais gols. Eu falava com Rincón, nós vamos pegar a marcação lá em cima, vamos correr muito”, comentou.

Foto: Arquivo pessoal

Além do título estadual, após vencer o Botafogo-PB em pleno Almeidão na decisão do segundo turno da competição, Iedo brilhou na Copa do Brasil. Não que o Treze tenha ido bem, porque não foi. Acabou sendo eliminado para o ABC, perdendo as duas partidas, na primeira fase.

Mas individualmente foi bom para Iedo. Isso porque ele fez um golaço de bicicleta no jogo de ida, em Natal. As imagens televisivas do gol foram amplamente divulgadas no dia seguinte, nos jornais esportivos. Iedo ficou conhecido no país todo, após pedalar para cima do goleiro Schumacher, do ABC. 

Uma das formações da equipe em 2000

“Deus fala assim, faça que eu te ajudarei. Eu fazia muitos gols de bicicleta nos treinos. Não foi nada por acaso. Eu treinava muito. Naquele dia eu conversei com Deus, no hotel, e pensei como que eu poderia voltar a ter mais projeção nacional. Mas tudo no tempo dele. Por coincidência, naquele dia, eu fiz esse golaço”, relembra o jogador.

Iedo fala com muito carinho do Galo da Borborema. Longe dos holofotes do futebol, após ter sido técnico depois do fim da carreira de jogador, o ex-atacante diz não querer estar tão perto do mundo da bola. Mas abriu uma exceção para conversar com o Jornal da Paraíba sobre sua passagem na Paraíba, principalmente no Treze, clube que diz amar até hoje. Querido pela torcida alvinegra, ele diz que a recíproca é verdadeira. 

“Eu primeiro queria lembrar e agradecer todos os companheiros que tive no Treze, mas em especial a Batista. Quando o Treze quis me contratar, teve que rescindir com um atacante. Então Batista saiu para que eu fosse para o Galo. Então ele tem muita importância nessa história. Foi uma linda trajetória. Foi lindo conviver com essa torcida, que é muito maravilhosa, e que amo muito”, agradeceu. 

O último contato de Iedo no Presidente Vargas não faz muito tempo. Em 2015, o Galo da Borborema enfrentou o Estanciano-SE, pela Série D, e o técnico do clube sergipano era Iedo, que foi recebido no PV, com muito carinho. 

PASSAGEM DISCRETA NO CAMPINENSE

Campeão pelo Treze em 2000 e, no ano seguinte, conquistando um histórico título estadual pelo Coríntians de Caicó, o primeiro de um time do interior no Campeonato Potiguar, Iedo estava com moral no mercado. Tanto que teve uma proposta para jogar em 2002 no futebol mexicano.

Mas antes de ir, Iedo tinha que jogar no Brasil, para manter a forma física, até a proposta se concretizar. Ele queria ir para o Treze, mas não deu certo retornar ao Galo da Borborema. Atento a isso, o Campinense entrou no vácuo e contratou o atacante para o Campeonato Paraibano. 

“Infelizmente os dirigentes da época, Olavo, Paiva, não estavam mais lá em 2002. E eu tinha brigado com o presidente do Treze naquela época. Então fechei com o Campinense. Não sei se foi a melhor escolha, mas eu sei que dei meu máximo. Mas quase chorei quando vi a torcida do Treze no outro lado”, disse o ex-camisa 7. 

“DEUS ME DEU OPORTUNIDADE DE NÃO MORRER”

Após algumas decepções e estresses no meio do futebol, Iedo tem uma visão bem cética sobre o mundo da bola. Houve várias felicidades, como as lembradas aqui com as camisas de Treze, Vitória e Coríntians de Caicó, por exemplo.

Foto: Arquivo pessoal
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Mas também muitos dissabores. Fatos acumulados que fizeram o ex-atacante, que mexia com os corações nervosos das torcidas nordestinas, ter problemas cardíacos, que acabaram resultando num Acidente Vascular Cerebral (AVC).

“Em 2015, eu pedi para sair do Estanciano-SE, e um mês depois tive um AVC. Perdi os movimentos do lado esquerdo todo. Foram oito meses de cadeiras de rodas. Deus me deu oportunidade de não morrer. Tive um AVC hemorrágico. Ainda tenho sequelas, ando com um pouco de dificuldade. Tive que me afastar do futebol. Mas hoje esse Iedo é muito mais feliz do que o outro. Eu sempre fui muito direito no futebol, e o futebol às vezes parece que os canalhas se dão bem. Eu cansei de ver pais de famílias com dificuldades sem receber salários” explicou.

O Iedo do Treze e do futebol nordestino segue ali, mas hoje, aos 51 anos, é muito mais o Iedo pai de Jade, Rainara e Nicolas, e o esposo de Ranuzia. Mora em Estância, em Sergipe, e se diz muito feliz. Hoje, aquele Iedo rápido e elétrico dos gramados paraibanos, caminha passos mais comedidos, revela ter o Treze no coração e sabe que tem um pé na história do nosso futebol.