Celso Furtado disse que as elites brasileiras são muito atrasadas

Entrevistei (junto com Otinaldo Lourenço) Celso Furtado para um programa da TV Cabo Branco. Foi numa noite qualquer do ano de 1989. Perto da primeira eleição presidencial depois do golpe de 64.

Fui buscá-lo numa livraria no centro de João Pessoa. Ele estava numa sessão de autógrafos. Fui com a consciência de que estava diante de um grande brasileiro.

Cresci ouvindo falar de Celso Furtado dentro de casa. O economista, o pensador, o primeiro superintendente da Sudene, o ministro de Jango, o professor no exílio. Celso estava sempre presente nas conversas e nas leituras do meu pai.

Os impasses brasileiros conduziram a entrevista. Os descaminhos da economia, as saídas que ele enxergava. E um pouco de memória: o encontro com o presidente Kennedy, a visita de Sartre ao Recife.

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Celso Furtado dirigiu uma pick up da Sudene para mostrar o Recife a Sartre.

Depois da gravação, um tema inevitável: as eleições presidenciais que se aproximavam. Eu disse que votava em Brizola. Ele, em Ulysses Guimarães. Mas temia que Collor fosse o vitorioso. Temíamos.

Foi aí que veio a frase:

“As elites brasileiras são muito atrasadas. São tão atrasadas que não admitem nem Dr. Ulysses”.

Mas, depois de Collor, tivemos o sociólogo Fernando Henrique, o operário Lula, a guerrilheira Dilma.

Celso Furtado estava equivocado em sua observação?

Vez ou outra penso que sim.

Quase sempre, penso que não.