Psicoterapia, medicamentos e terapias integrativas são caminhos contra depressão

Especialistas falam sobre o tratamento para minimizar o transtorno.

Pacientes com depressão são atendidos na clinica de Psicologia da UFPB (Foto: Douglas de Oliveira)

O horizonte parece um ponto inalcançável e, ao mesmo tempo, impassível de contemplação. O futuro se mostra inatingível, e o presente, apático. Sentimentos se esvaem antes mesmo de produzirem reações no corpo. As alternativas se reduzem como num efeito dominó. Essa é a perspectiva daqueles que convivem internamente com a depressão. Entretanto, para além do véu que obscurece a visão dessas pessoas, há um caminho repleto de vozes que as alentam e mãos que as amparam e guiam rumo às tantas possibilidades viáveis. A última reportagem da série ‘As Faces do Vazio’ aborda o tratamento contra a depressão.

(Esse texto faz parte da série ‘As Faces do Vazio’, produzida por Douglas de Oliveira originalmente como trabalho de conclusão no curso de Jornalismo da Universidade Federal da Paraíba.)

Embora não haja cura para os transtornos mentais, os tratamentos desenvolvem nas pessoas o equilíbrio e o autoconhecimento suficientes para que os efeitos nocivos diminuam. Segundo a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa, no livro Mentes Depressivas, os profissionais de saúde mental travavam disputas entre si, a fim de reivindicar a importância da sua participação no processo de tratamento e excluir outras intervenções. De um lado, psiquiatras afirmavam que o uso de medicamentos era a solução mais viável; de outro psicólogos resistiam à ideia das prescrições medicamentosas e apostavam na eficácia única da psicoterapia.

No entanto, essas posturas egoístas têm mudado e, hoje em dia, médicos, psicólogos e outros terapeutas confluem suas abordagens para atacar cada parte da depressão. Antes de qualquer tratamento, é necessário que o depressivo se conscientize de que deve procurar e aceitar ajuda de outras pessoas, principalmente de profissionais.

Devido ao preconceito que recobre o transtorno, as pessoas que convivem com ele relutam em aceitá-lo e enfrentá- lo. De acordo com Silvana Maciel, professora no curso de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), dois grandes estigmas atrapalham a identificação e o tratamento da depressão: o da loucura e o da fraqueza.

“Muitas vezes, quando chega uma pessoa com depressão para se tratar, a grande questão dela é se perguntar: “eu sou louco?”, “eu vou ficar bom?”. Existe bastante essa representação. Por outro lado, existe também a representação de que o indivíduo que tem depressão possui características de personalidade de ser fraco, de não ser sociável, de fazer ‘corpo mole’. Tudo isso dificulta o tratamento correto do transtorno”, afirma

Essas opiniões equivocadas levam à busca de falsas soluções para a depressão. Confundidos com tristeza, os problemas seriam facilmente sanados depois de um passeio no shopping, na praia ou no parque. Entretanto, além de não resolver o transtorno, essas atitudes podem intensificá-lo, pois atribuem à falta de força de vontade das pessoas depressivas a culpa pela situação calamitosa que vivem.

“Será que sair de casa melhora? Será que sair com os amigos melhora? Se isso for forçado, talvez seja um ponto a mais de fragilização do sujeito e não vai beneficiar. Porque ele vai se sentir culpado, ele não vai conseguir de fato fazer aquilo. E isso pode levá-lo a dizer para si mesmo: ‘eu não consigo’, ‘eu sou incapaz’. Porque, junto com a depressão, também vem baixo autoestima”, explica Silvana.

É preciso procurar um profissional

Procurar ajuda profissional em vez de cuidados paliativos que podem agravar o caso é uma postura sensata e desprovida de preconceitos. A psicoterapia, independentemente da abordagem, possibilita que o cliente descubra a si mesmo e trace meios para encontrar um equilíbrio em suas sensações. Embora o tempo do acompanhamento costume ser longo, o psicólogo busca desenvolver a autonomia do sujeito, a fim de que ele consiga manter-se estável após o término das sessões.

“Qualquer um pode estar sujeito à depressão. É preciso que as pessoas entendam que sofrer algo emocional não é diferente de sofrer algo orgânico. Da mesma forma que a gente cuida do nosso organismo, temos que cuidar da nossa saúde mental. Se o ser humano é único, nós não podemos separar o orgânico do psíquico. Se é depressão de fato, a pessoa deve ser tratada pelo psiquiatra, pelo psicólogo, praticar exercícios físicos, trabalhar as relações familiares, verificar se há alterações endócrinas. É um conjunto bem complexo”. atenta a professora.

O uso de medicamentos também faz parte do tratamento da depressão. Embora comumente haja a preocupação de que eles causam dependência química ou deixam o paciente dopado, os profissionais de saúde mental atestam o contrário. Para a psiquiatra Diana Martins, psicoterapia e medicação funcionam juntos na melhora das pessoas em processo depressivo. Ela considera que alguns casos podem ser tratados somente com as sessões psicológicas e com terapias integrativas, como acupuntura ou auriculoterapia. A intervenção medicamentosa se faz necessária, porém, quando os prejuízos começam a se estender e afetar outros setores da vida da pessoa,como o trabalho, os estudos e as relações interpessoais. Diante da imensa dificuldade de desempenhar as funções rotineiras, a medicação age como um caminho para o bem-estar físico e emocional.

O mercado farmacêutico oferece um leque extenso de medicamentos para o tratamento da depressão. Eles são prescritos conforme os sintomas específicos do paciente, no intuito de concentrar ao máximo as substâncias e evitar a ingestão diária de vários comprimidos diferentes, um para cada sintoma. Em casos de depressão unipolar, os medicamentos antidepressivos agem na química cerebral aumentando os níveis de serotonina, noradrenalinae dopamina. Já nos casos de depressão bipolar, é preciso que, além dessas substâncias, o paciente use estabilizadores de humor, a fim de evitar as crises de euforia. Outros medicamentos receitados são os ansiolíticos, que reduzem a ansiedade e ajudam no sono, e os antipsicóticos, quando há atitudes extremas de agressividade e impulsividade geradas por delírios e alucinações.

A psiquiatra Diana Martins alerta para comportamentos equivocados que acontecem com recorrência após o início do tratamento. Devido ao rápido efeito dos antidepressivos, alguns pacientes sentem-se bem o suficiente para abandoná-los já nos primeiros meses de uso, pois as crises se tornam raras. Ela enfatiza que, mesmo assim, é preciso continuar o tratamento até que os medicamentos sejam suspensos pelo médico responsável. Outra postura comum é a associação de qualquer sinal de tristeza ou angústia à depressão.

“Muitas vezes as pessoas, principalmente quando começam o tratamento, esquecem que são seres humanos. E é algo que eu oriento muito, porque já aconteceu de pessoas virem angustiadas dizendo que estavam tendo uma recaída quando, na verdade, elas só estavam tendo uma reação normal a uma situação difícil que elas estavam passando. Muitos acham que o antidepressivo os fará felizes pra sempre, que nunca mais sentirão tristeza ou raiva. Mas os pacientes precisam entender que esses sentimentos fazem parte do ser humano”, explica a psiquiatra.

Todos os personagens citados na série fazem acompanhamento psicoterápico e usam ou usaram medicamentos. Cada uma dessas histórias revela a eficácia do tratamento e abre zonas de esperança no campo outrora minado por bombas de desespero. Essas pessoas mostram que é possível enfrentar e vencer os “demônios do meio-dia”.

* Com edição de Jhonathan Oliveira

* A série ‘As faces do vazio’ é originária da grande reportagem ‘Entre semblantes, sentimentos e sentidos: a (des)construção discursiva da depressão sob a ótica do jornalismo’ apresentada como Trabalho de Conclusão de Curso em Jornalismo do acadêmico Douglas Oliveira, sob orientação de Carlos Azevedo.