Angélica Nunes
Laerte Cerqueira

Sem o Censo do IBGE, Brasil tem retrato embaçado da população e o seu dinheiro será aplicado “às cegas”

Por LAERTE CERQUEIRA

Foto: G1/Ary Souza

Por falta de dinheiro, o governo federal diz que não vai fazer, mais uma vez, o Censo Demográfico do IBGE. Ano passado, a pandemia foi o motivo principal. A última pesquisa foi em 2010.

O orçamento para a pesquisa já foi de R$ 3 bilhões, caiu para 2 bi. Este ano foi aprovado, no Congresso, para R$ 73 milhões e o governo deixou pouco mais de R$ 50 milhões. Dinheiro que não dá nem para preparar a pesquisa para 2022. Um outra gravidade.

E o que isso tem a ver com a gente? Os dados servem para formulação de políticas públicas, sociais e econômicas. Mas o que são essas políticas? São ações dos agentes públicos para garantir direitos constitucionais ao cidadão: saúde, educação, saneamento básico, segurança etc.

Quem somos

Os dados ajudam o próprio governo saber quem somos. Quantos miseráveis, quantos pobres, quem está na “chamada” classe média, quem é rico ou milionário. Mas não é só isso.

As informações balizam a distribuição de recursos para estados e municípios. Com eles, é possível saber, com mais precisão, onde é necessário mandar dinheiro para creches, escolas, hospitais. É possível saber quem tem acesso ou não às tecnologias, quem tem água potável, esgoto na porta de casa, quem tem casa.

Municípios que poderiam receber mais recurso, vão receber menos (e vice-versa). Áreas e grupos que precisam mais de ação do poder público serão negligenciados porque as informações atuais não vão revelar o tamanho do problema.

Os dados trazem um retrato do país. Sem eles, teremos uma fotografia embaçada, desatualizada. Em alguns casos, nos quais os números não puderam ser atualizados, os governos vão usar dinheiro sem saber ao certo a dimensão do alcance.

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Serão ações, em certa medida, às cegas. Com dados velhos que não representam mais a realidade, que criam cenário para um aplicação errada dos recursos. Prejuízo com os quase 40% de impostos que pagamos, em quase todas as nossas compras.

País não é sério 

Não deve ter mudança para esse ano. Mas se fossemos um país sério, teríamos toda a classe política lutando por isso. Tirando as exceções, a maioria está preocupada com o dinheiro para a obra que vai garantir a eleição do ano que vem. Um pragmatismo político nocivo e até criminoso. Afinal, é por causa de uma ação prática equivocada, ou omissão, que muitos morrem sem proteção do Estado.

A Justiça, o MP, os Congressistas, a sociedade civil têm que, ao menos, cobrar a preparação da pequisa para que seja feita ano que vem. Para isso, exigir que o governo Bolsonaro destine recursos para a pesquisa que, como disse, é algo fundamental na hora de usar bem nosso suado dinheiro.

Estamos literalmente à deriva. Sem informações sobre nossa realidade atual.

Parece algo doloso. Porque,  se fosse de fato prioridade, como são algumas emendas parlamentares e o orçamento intocável de alguns órgãos e instituições federais, o Censo seria feito, mesmo com o cenário mais complicado da pandemia.

Porém, para atuais lideranças brasileiras, é mais fácil encarar a realidade deturpada para adaptá-la as conveniências, criar fatos fictícios, acreditar nas próprias convicções, do que encarar os fatos como eles são.