Angélica Nunes
Laerte Cerqueira

Guerra das Flores em Areia: entre embate judicial e político, o prejuízo para o turismo local

Por ANGÉLICA NUNES e LAERTE CERQUEIRA

Foto: divulgação

Tombada desde 2006 como patrimônio histórico e urbanístico pelo Iphan, a charmosa cidade de Areia, no Brejo paraibano, também desperta o interesse de turistas por uma componente a mais: as flores. Estrategicamente instaladas nas sacadas das casas e, mais tarde, espalhadas pelas calçadas e postes, elas davam vida aos casarões históricos. Mas o que tinha apelo popular turístico/comercial, acabou virando uma batalha política e judicial.

Para desdobrar o imbróglio que se tornou a ‘guerra das flores’ em Areia precisamos retornar a 2017, quando surgiu a ideia de decorar a cidade com flores. O então secretário de Turismo da cidade, Romeu Lemos, primeiramente enfeitou com rosas, flores, lírios os prédios da administração municipal. A população se encantou com a ideia e passou a colocá-las em suas janelas. A ideia era também incentivar as floriculturas que cultivam flores na zona rural da cidade.

O ‘casamento’ perfeito entre arquitetura e natureza se tornou um diferencial a mais para fomentar o turismo local. Empolgada com a repercussão positiva, a empresária Maria Julia, proprietária do Engenho Triunfo e irmã do então prefeito, João Francisco, decidiu, por conta própria, instalar em alguns calçadas bancos de madeira com plantas nas laterais.

Tudo ia funcionando em harmonia, até o início de abril, quando a prefeitura decidiu retirar tudo: bancos e vasos das calçadas, decorações dos postes. Até as plantas que ornamentavam a entrada da igreja matriz foram retiradas, conta Maria Julia.

“O que eu posso dizer é que mais do que colocar os jarros, bancos e flores, foi o trabalho de educação e resgate do orgulho de ser areiense”, lamenta.

Foto: divulgação
Decisão

Um parêntese nesse enredo é que Sílvia Cunha Lima, atual prefeita de Areia, é do grupo da oposição ao ex-prefeito idealizador do projeto. A atual gestão, no entanto, nega que a medida teve cunho político, mas sim que atende a uma decisão judicial.

O secretário de Turismo Francisco Lourenço disse que a retirada dos vasos e bancos que obstruíam as vias públicas foi solicitado pelo Ministério Público e atendido pela Justiça desde o dia 03 de novembro do ano passado. Na época, a justiça rejeitou as alegações da prefeitura e determinou a retirada, sob pena diária de R$ 500, ao limite de R$ 15 mil.

Para aumentar a pressão, no último dia 14 de abril, o promotor de Justiça Newton da Silva Chagas enviou ofício à prefeita exigindo o cumprimento da sentença, que obriga a gestão a “desocupar as vias públicas ocupadas ilegal ou irregularmente por qualquer pessoa física ou jurídica, a fim de garantir o livre trânsito de pedestres e veículos nas vias públicas do município”.

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Curiosamente, no mesmo dia, a prefeitura também recebeu um ofício da Energisa, empresa que fornece energia elétrica na cidade, pedindo a retirada dos jarros e bambus que enfeitavam os postes. O argumento é de que eles “impedem nossa equipe de eletricistas possa realizar a amarração de suas escadas quando estão realizando a manutenção na rede, provocando, assim, insegurança para os mesmos”.

Polêmica dos bancos

Maria Julia, entretanto, insiste que a ordem judicial é apenas para placas, carrinhos de supermercado e tendas que estavam obstruindo as calçadas e não para as plantas ornamentais. Ela também cobra a devolução do material colocado pela Triunfo. “Nossa Associação de Turismo (Atura) requereu os jarros e bancos e o marido da prefeita foi para rádio e disse que não devolvia”, conta.

Sobre isso, o secretário de Turismo disse que o entendimento da administração municipal é que, ao serem instalados em área pública, ele fazem parte do acervo do município. “Eles apresentaram um termo de doação à Atura após o recolhimento do material. Nosso entendimento é que eles devem formalizar o pedido no Justiça”, afirmou.

Foto: divulgação
Boas notícias

Apesar da disputa política, Francisco Lourenço afirmou que a prefeitura compreende a importância das flores para o turismo local e está reeditando o projeto, mas seguindo as regras da ABNT sobre arborismo, paisagismo e acessibilidade em relação à ocupação dos espaços públicos. Por isso mesmo não deve recorrer ao Tribunal de Justiça para reverter a decisão de primeiro grau.

O projeto se chamará ‘Flores de Areia’ e, segundo o secretário disse que a Atura e demais atores do turismo na cidade foram convidados a partir das tomadas de decisões, “para que não haja mais dúvidas a respeito do mesmo”.

“Espero muito que Drª Sílvia, como mulher que é, se alie aos nossos anseios de deixar ainda mais bonita a nossa querida Areia, que espalhe ainda mais flores, que restaure a saúde e a alegria do nosso povo, que tudo isto seja apenas um mal entendido e que esta história ainda tenha um final feliz, pois se ainda não teve, é porque ainda não chegou ao final”, afirma Maria Julia.

As flores de Areia se tornaram mais do que adereços decorativos, fazem parte do acervo emocional da cidade. Manter vivo isso na cultura do seu povo, enchendo de beleza os olhos do turista algo no número inteligente a se fazer.