COTIDIANO
Áudios expõem atuação de delegado preso em esquema de desvio de drogas
Entre os 40 mil áudios utilizados na investigação, agente cita delegado preso em divisão de lucros e proteção a envolvidos.
Publicado em 10/06/2026 às 6:55
Áudios obtidos pela investigação contra delegado da Polícia Civil da Paraíba, Braz Morroni, e outros dois agentes da corporação, expõem a participação do delegado em esquema de desvio de drogas e armas.
Entre os 40 mil áudios utilizados na investigação, há diversos trechos em que Everton Rychelyson da Silva Aires, conhecido como "Bomba", que é apontado como principal operador do esquema criminoso, cita o delegado Braz Morroni. O outro agente preso é Eduardo Jorge Ferreira do Egito, conhecido como "Mão Branca".
Conversas sobre divisão de lucros

Em um deles, o agente cobra o dinheiro de uma droga repassada e diz que o delegado perguntou quando sairia o pagamento. Neste áudio, não é possível saber com quem o agente está falando.
“Jovem, veja com nossa bolinha de ouro lá quando é que ele vem com o dinheiro da branca que a gente passou na semana passada. (...) Sábado fez oito dias; meu bom dia hoje do delegado foi perguntando desse dinheiro”.
O material traz, em outro momento, Bomba negociando com um integrante do esquema para não repassar ao delegado todo o dinheiro acordado.
“Daquele dinheiro que a gente tem que dar pra Braz, ao invés de dar tudo de uma vez, que ele não sabe que a gente vendeu tudo, né? Eu digo que a gente vendeu metade, aí, em vez de dar setenta e dois, a gente dá só trinta e seis (...). Aí a gente segura a mão uns trinta, quarenta dias para frente para dar o resto dele”.
As investigações obtiveram também um áudio em que Bomb informa ao delegado Braz Morroni sobre os lucros obtidos com o esquema criminoso. Na gravação, ele relata o recebimento de R$ 8 mil por meio de uma transferência via Pix. Em seguida, Bomba diz que o delegado deveria ter sido transferido para a Delegacia de Crimes contra o Patrimônio (DCCPAT), conhecida como Delegacia de Roubos e Furtos, há muito tempo, em referência aos ganhos financeiros obtidos na unidade com o esquema.
“Estava aqui de boa, daqui a pouco tem um comprovante Pix de R$ 8 mil. Duas bolinhas de uma social que a gente passou lá para Campina Grande. Eu mandei para Mão Branca, ele enlouqueceu, parecendo pinto no lixo. Eu não disse que dava dinheiro? Era para o senhor ter vindo para a Roubos e Furtos há muito tempo atrás”.
Em outro áudio, supostamente enviado a Eduardo Jorge Ferreira, conhecido como “Mão Branca”, Bomba informa sobre um pagamento que fez ao delegado e também sobre um recesso.
“Braz veio aqui pegar o dinheiro dele, aí eu falei para a gente tirar um recesso junto com ele, agora em janeiro. Ele disse que entra dia 5, aí volta dia 20. Vai tirar 15 dias”.
Em mais um áudio obtido, o agente conversa sobre uma suposta articulação envolvendo o delegado Braz Morroni e a apreensão de armas de fogo. Na gravação, ele relata ter falado com o delegado e afirma que os dois, junto com um terceiro agente, iriam até a Central de Polícia para verificar informações sobre quatro armas. Em seguida, sugere que uma delas poderia ser atribuída a um suspeito de assalto, enquanto as demais teriam outro destino.
“Pronto, eu falei com Braz agora, ele disse que cola com a gente. Oito horas a gente vai para a Central, agrupa com ele lá e nós três vamos. Eu disse que pode ser que tenha quatro armas. Eu perguntei a Sheldon quais eram essas armas. Ele disse que não sabe, vai procurar saber, mas, se tiver, pode ser que o cabra pegue o cabra que atirou em Sérgio e ainda pegue a arma do assalto. A gente bota esse fresco na cadeia com a arma, e as outras a gente dá destino”.
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A principal utilidade do delegado para o grupo seria servir como uma espécie de proteção institucional, de acordo com um dos áudios das investigações. No trecho em questão, Bomba diz que, em caso de denúncia ou investigação, a presença de um delegado ao lado dos suspeitos dificultaria a responsabilização dos envolvidos, devido ao corporativismo dentro da corporação.
“O delegado é morto, pô. O delegado não serve de c******* nenhum. A única vantagem dele pra gente é que, se der uma merda, uma denúncia, um negócio, por ele ser delegado e estar colado na gente, os delegados são corporativistas… Para f**** a gente tem que f**** ele, entendeu? Aí é um guarda-chuva para a gente”.
O que dizem as defesas
A defesa de Everton Aires afirmou que o devido processo legal está em curso e que o investigador não aceita as acusações.
O advogado de Eduardo Jorge disse que não é crível que policiais negociem drogas de forma aberta e que pode haver um processo de desgaste de imagem.
Já a defesa do delegado Braz Morroni afirmou que não há elementos que comprovem a participação consciente dele nos fatos investigados.

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