COTIDIANO
Cabedelo é monitorada por facção criminosa a partir do Rio de Janeiro, apontam investigações
Cidade turística da Paraíba é alvo de operações que apuram infiltração do crime organizado na gestão pública e vigilância ilegal por câmeras.
Publicado em 11/05/2026 às 7:14

Cabedelo, na Grande João Pessoa, passou a ser monitorada à distância por integrantes do Comando Vermelho instalados no Rio de Janeiro, segundo investigações da Polícia Federal e do Ministério Público da Paraíba. De acordo com as apurações, a facção usa câmeras clandestinas para acompanhar a rotina da cidade, 24h por dia, e interferir em decisões locais, incluindo ações dentro da administração municipal.
Nos últimos anos, mais de dez operações foram deflagradas para investigar corrupção, organização criminosa e desvio de recursos públicos em um município com pouco mais de 60 mil habitantes.
As investigações apontam que o crime organizado se infiltrou em setores estratégicos da prefeitura e passou a influenciar diretamente a vida dos moradores.
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Segundo o delegado regional da Polícia Federal na Paraíba, João Marcos Gomes Cruz Silva, Cabedelo enfrenta um colapso institucional. Ele afirma que a atuação do crime compromete o funcionamento do poder público. Para o procurador-geral de Justiça do MP-PB, Leonardo Quintans, o avanço da facção gera perda de liberdade para a população, que passa a viver sob comando de um poder paralelo.
As investigações indicam que o monitoramento da cidade ocorre a partir do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Áudios e vídeos obtidos pela polícia mostram integrantes da facção acompanhando imagens de dezenas de câmeras espalhadas por ruas, becos e áreas residenciais. Um dos investigados afirma, em vídeo: “Oi, família. Minha visão de cria aqui. Só paz e tranquilidade”. Para os investigadores, o esquema funciona como um “home office do crime organizado”.
O nome que aparece com frequência nas apurações é o de Flávio de Lima Monteiro, conhecido como Fatoka. Segundo a polícia, ele começou a atuar em facções na Paraíba e fundou a Tropa do Amigão, ligada ao Comando Vermelho no Nordeste. Fatoka acumula 13 mandados de prisão por tráfico de drogas, homicídios e organização criminosa. Ele fugiu do Presídio de Segurança Máxima da Paraíba em 2018 e, após ser recapturado, rompeu a tornozeleira eletrônica no mesmo dia em que foi colocado em liberdade, em 2022.
Mesmo foragido no Rio de Janeiro, a polícia afirma que ele continua dando ordens sobre Cabedelo. Em áudios, fala sobre a expansão da facção para áreas da capital paraibana e usa o termo “ponteamento”, que, segundo a investigação, significa mapear território e eliminar rivais. Quintans afirma que esse controle permite que o grupo atue com segurança e estabilidade.
Nas ruas da cidade, pichações com referências ao Comando Vermelho e a Fatoka indicam domínio territorial. Imagens analisadas pela polícia mostram grupos armados circulando por bairros residenciais e efetuando disparos para o alto. Em um vídeo, um homem afirma: “Tropa do amigão tá na pista”.
As câmeras clandestinas, chamadas de “besouros”, são usadas para alertar sobre a presença de rivais ou da polícia. O comandante de batalhão da Polícia Militar da Paraíba, tenente-coronel Luiz Antônio, explica que os equipamentos costumam ser camuflados em postes, árvores e estruturas metálicas. Durante operações, policiais relatam que sabem estar sendo observados em tempo real.
O controle da facção também alcança a organização comunitária. Vídeos mostram criminosos acompanhando reuniões de moradores e avisando sobre circulação armada durante a madrugada. Em uma das gravações, um integrante diz que a presença do grupo ocorre “em prol de defender as nossas vidas e as vidas de vocês”.
As investigações apontam ainda que o crime organizado avançou para dentro da Prefeitura de Cabedelo. Os últimos quatro prefeitos do município são investigados ou sofreram decisões judiciais. Leto Viana renunciou enquanto estava preso; André Coutinho teve o mandato cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral; Edvaldo Neto foi afastado após a eleição; e Vitor Hugo se tornou inelegível. As defesas negam qualquer envolvimento com organização criminosa.
Segundo o Ministério Público, o esquema envolvia loteamento de cargos, “rachadinhas” e o uso da empresa Lemon Terceirização e Serviços Ltda. para desvio de dinheiro público. O prejuízo estimado é de R$ 270 milhões. Em depoimento, Ariadna Cordeiro Barbosa, apontada como gerente financeira da facção, afirmou que contratações na prefeitura ocorriam por indicação direta do grupo criminoso.
Enquanto isso, equipamentos públicos ficaram abandonados ou com funcionamento limitado. Em um prédio de saúde, apenas o serviço de raio-X opera três vezes por semana. O vigilante do local é funcionário da empresa investigada. O presidente da Câmara Municipal, José Pereira, assumiu interinamente a prefeitura e afirmou que a situação da cidade é complexa. O procurador do município, Leonardo Nóbrega, informou que o contrato com a Lemon será anulado, com modulação para evitar a interrupção de serviços essenciais prestados por mais de 600 trabalhadores.
Em nota enviada ao Fantástico, a Lemon informou que emprega mais de 700 pessoas em Cabedelo, exige certidões criminais negativas desde 2024 e afirma colaborar com as investigações.
No Rio de Janeiro, áudios indicam que Fatoka considera as áreas dominadas por facções como locais seguros para foragidos. O secretário Victor dos Santos avalia que esse cenário reflete a ausência histórica do Estado em determinados territórios. Dados mostram que o número de foragidos de outros estados presos no Rio aumentou entre 2022 e 2025.
A defesa de Fatoka afirma que não há provas que o vinculem aos crimes investigados. A polícia, no entanto, sustenta que ele segue foragido no Complexo do Alemão e mantém controle sobre Cabedelo. Em um áudio, ele diz: “Lá nas áreas, só cai uma folha se eu disser que sim”.

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