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COTIDIANO

Mulher presa por mandar matar marido transforma história em livro: 'Ele não me deixou saída'

Condenada por homicídio em 2016, Amanda Karoline narra em obra autobiográfica a trajetória marcada por violência doméstica.

Publicado em 08/03/2026 às 8:36 | Atualizado em 08/03/2026 às 13:40

Um histórico de violência doméstica frequente e abusos sofridos durante o casamento levaram a jovem Amanda Karoline a mandar matar o marido em 2016, no Rio Grande do Norte. Como todo crime, o de Amanda gerou consequências: foi presa, julgada e condenada. Durante os anos na prisão, no entanto, resolveu transformar em livro a história de violência sofrida por ela, o crime praticado e a vivência dentro do sistema prisional.

A autobiografia "De Tambaba à prisão - uma trama real de violências e abusos no paraíso do nudismo brasileiro" foi escrita dentro do presídio e reconstrói um percurso que começa na infância, passa pelo casamento precoce, pela violência que se repetiu por anos e pelo momento em que, aos 23 anos, ela tomou a decisão que a levou à prisão. A narrativa inclui ainda um dos cenários mais conhecidos do litoral paraibano, onde os abusos começaram.

Citação

Se eu não tivesse tomado essa decisão, hoje eu não estaria falando com vocês. Eu não queria que as coisas tivessem sido dessa forma, porém ele não me deixou saída quando ameaçou a pessoa mais importante da minha vida: a minha mãe”, disse.

Amanda Karoline - Escritora

Da infância ao casamento imposto


				
					Mulher presa por mandar matar marido transforma história em livro: 'Ele não me deixou saída'
Amanda Karoline, presa por mandar matar marido, transforma história em livro. Foto: Arquivo pessoal / Amanda Karoline

Amanda nasceu em 1992, em Natal, no Rio Grande do Norte. Tinha 12 anos quando conheceu Rômulo Barbosa, primo de seu pai. O relacionamento começou ainda na adolescência e, aos 15, após a família descobrir que os dois haviam tido uma relação sexual, o casamento foi imposto.

No resumo que faz da própria história, Amanda afirma que viveu cerca de dez anos em um relacionamento marcado por violência doméstica.

Citação

Fui casada durante 10 anos. Fui vítima de violência doméstica, sofri violência moral, psicológica, física, patrimonial e até mesmo a sexual, que foi quado eu entendi que estava passando por um relacionamento abusivo e decidi dar um basta no meu sofrimento de uma forma errada"

Amanda Karoline - Escritora

Segundo ela, as agressões começaram no primeiro mês de casamento e se repetiram ao longo dos anos. Amanda ainda diz que foi impedida de estudar e vivia sob controle e ameaças constantes.

Praia de Tambaba e a escalada da violência

A praia de Tambaba, no litoral sul da Paraíba, aparece como um dos principais símbolos da história. Localizada no município da Paraíba e conhecida por ser uma das principais praias de naturismo do Brasil, Tambaba é apresentada no livro como o cenário onde os abusos sexuais começaram.

Citação

Os abusos, inicialmente, aconteceram na praia e depois se espalharam para casas de swing e pousadas nas redondezas"

Amanda Karoline - Escritora

Tambaba, na narrativa, não é apontada como causa, mas como cenário de uma história que se agravou ao longo do tempo. "Eu não tenho problema com o lugar, porque o lugar não deve ser culpado pelas perversidades do ser humano".

Ela relata que, após uma abordagem sobre troca de casais, o companheiro a obrigou a fazer sexo com outro homem diante dele, ainda na praia. Ao se recusar a repetir a situação, afirma que passou a sofrer ameaças contra a própria família. Amanda conta que, depois disso, perdeu a sensação de saída.

'Reviver tudo não foi nada fácil, mas o fim foi libertador'

Foi em 2016, durante uma ida à academia, que uma colega percebeu marcas de violência no corpo de Amanda e sugeriu que ela mandasse matá-lo. A ideia, segundo Amanda, surgiu naquele momento e passou a ocupar seus pensamentos. Em agosto daquele ano, ela contratou um pistoleiro. O marido foi morto a tiros. Três meses depois, Amanda foi presa. Em 2018, foi julgada pelo Tribunal do Júri e condenada a 19 anos de prisão.

Ao falar sobre a decisão, ela afirma que não busca justificativas. Reconhece o crime e separa o julgamento público do que carrega internamente.

Citação

Meu arrependimento é entre eu e Deus. Não tem como se arrepender de algo que te traz paz”

Amanda Karoline - Escritora

				
					Mulher presa por mandar matar marido transforma história em livro: 'Ele não me deixou saída'
Amanda na Biblioteca do sistema prisional, em 2020. Foto: Arquivo pessoal / Amanda Karoline

Amanda conta que a sentença provocou revolta. Foi esse sentimento que abriu espaço para a escrita, ainda dentro do sistema prisional, após o incentivo de uma policial penal. Transformar a própria história em palavras exigiu revisitar episódios de violência e silêncio.

Citação

Essa sentença me revoltou, porque todos os dias vemos mulheres serem assassinadas por seus companheiros e a pena deles é mínima. Uma policial penal me encontrou revoltada com tudo o que tinha acontecido e foi ela quem acreditou em mim e me incentivou à escrita. De imediato, resisti. Não queria que as pessoas soubessem as barbaridades que vivi. Reviver tudo não foi nada fácil, mas o fim foi libertador”

Amanda Karoline - Escritora

				
					Mulher presa por mandar matar marido transforma história em livro: 'Ele não me deixou saída'
Amanda Karoline já vendo mais de 5 mil cópias do livro. Foto: Arquivo pessoal / Amanda Karoline

O livro foi concluído no cárcere e já ultrapassou 5 mil exemplares vendidos. Ao deixar o regime fechado, em 2022, Amanda afirma que não conseguiu se reinserir no mercado de trabalho por causa do preconceito. Sem emprego, passou a vender a obra pessoalmente, inclusive em praias do Rio Grande do Norte.

Citação

Com o uso da tornozeleira eletrônica, não consegui arrumar emprego. As pessoas só me marginalizavam. Então, meu pai surgiu com a ideia de vender os livros na praia. Não é um trabalho fácil. Há, sim, acolhimento, mas também existe o preconceito, que está enraizado na sociedade”

Amanda Karoline - Escritora

Hoje, ela cumpre pena em regime aberto, está casada e segue vivendo fora do sistema prisional. Além do livro já publicado, afirma ter um segundo título em preparação e um terceiro em fase de escrita. Também ocupa uma cadeira na Academia Brasileira do Cárcere, posição que define como simbólica por representar Esperança Garcia.


				
					Mulher presa por mandar matar marido transforma história em livro: 'Ele não me deixou saída'
Foto: Arquivo pessoal / Amanda Karoline
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Janinne Vivian

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