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COTIDIANO

'Gota d’água foi quando me vi sozinha', relata mulher vítima de relação abusiva

A história de Sara Cardoso faz parte da série especial “Onde Ela Estiver”, que estreou no Bom Dia Paraíba e debate violência contra a mulher.

Publicado em 15/03/2026 às 8:12


				
					'Gota d’água foi quando me vi sozinha', relata mulher vítima de relação abusiva
Tribunal de Justiça da PB lança ferramenta com estatísticas sobre violência doméstica. Nadine Shaabana/Unsplash

À primeira vista, o ciclo da violência contra a mulher pode parecer fácil de identificar. Mas, na maioria das vezes, ele começa de forma silenciosa, com atitudes de controle, ciúme excessivo e agressões psicológicas que nem sempre são reconhecidas como violência. A professora Sara Cardoso passou por isso em dois relacionamentos abusivos. No início, acreditava que o ciúme e o sentimento de posse eram algo que poderia ser administrado. Até perceber que não eram.

“Eram pessoas que tinham ciúme e que alegavam que ficavam transtornadas daquela forma porque eu era uma mulher muito bonita, porque chamava atenção, ou seja, eles tentavam colocar em mim uma culpa que eu não tinha”, detalhou em entrevista ao Bom Dia Paraíba, na série Onde Ela Estiver.

Durante o segundo relacionamento, a possessividade passou a se tornar perseguição e controle, minando a liberdade de Sara.

“No último relacionamento, os sinais começaram a ficar mais evidentes. Em qualquer lugar que eu estivesse, ele conseguia me achar. Quando eu ia discutir isso com ele, ele dizia que era cuidado, que era zelo, que era tentando me proteger. Ele me limitava à obrigação de estar sempre com ele”, contou.

O isolamento característico da violência psicológica também fez parte dos relacionamentos de Sara. A professora relata que o comportamento tóxico era frequentemente justificado como cuidado.

“A gota d'água foi quando, assim, quando eu me vi sozinha. Quando realmente eu olhei para um lado e para o outro e vi que eu não conversava mais com ninguém. Que eu não visitava mais a minha família e só tinha aquela pessoa que me silenciava o tempo todo”, detalhou.

A violência psicológica não deixa marcas físicas, mas toma o controle da vida da vítima, que pode acabar relativizando o contexto abusivo.

“É uma violência simbólica, silenciosa, que não vai fazer com que a gente saia daquele momento e vá à delegacia prestar uma queixa. E reagir é difícil, porque toda a estrutura social naturaliza isso que a gente tem como norma. Mas isso não é natural, isso é social, é construído”, explicou a socióloga Evellyne Tamara.

Para além do relacionamento, Sara conta que a pressão externa também contribuiu para o ciclo abusivo.

“Por ser muito jovem e não ter condições financeiras de seguir a vida, a gente vai permanecendo ali achando que é a única opção que a gente tem. Por questões também de cunho religioso, de receber orientações espirituais. A gente tem sido ensinada a detectar esses abusos. Os homens não têm sido ensinados, na mesma proporção que as mulheres, a mudar esse comportamento”, concluiu.

Canais de denúncia

A violência psicológica ainda é naturalizada e invisibilizada. Entretanto, esse tipo de agressão está previsto no Código Penal a partir da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340).

Assim como fez Sara, é importante quebrar o ciclo de controle e formalizar a denúncia.

Mulheres vítimas desses contextos de controle e abuso podem procurar canais de atendimento, como:

  • 180 - Central de Atendimento à Mulher
  • 190 - número emergencial da Polícia Militar
  • 197 - número para denúncia da Polícia Civil
Imagem

Jornal da Paraíba

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