MPPB denuncia descaso na saúde para atendimento a idosos

Promotoria de Saúde de João Pessoa investiga casos de falta de atendimento hospitalar na rede pública e aponta precariedade nos serviços do Hospital Ortotrauma

Dona Isautina Eloi Firmino, 93 anos, e o marido, José Firmino Pereira, 92 anos, são exemplos do descaso com os idosos por parte dos órgãos ligados à saúde pública. O casal vive abandonado nos fundos de uma propriedade, no bairro do Bessa, onde trabalharam a vida toda como caseiros mas, além da família, o essencial lhes falta: a saúde.
De acordo com a titular da 1ª Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania e dos Direitos Fundamentais do Cidadão e do Idoso, Sônia Maria Paula Maia, uma denúncia sobre o estado de fragilidade e vulnerabilidade do casal de idosos chegou à promotoria no dia 14 de abril deste ano. Após isso, uma equipe técnica do Ministério Público da Paraíba (MPPB) foi ao local e constatou a veracidade da denúncia.
“A equipe me remeteu um relatório com a situação dos idosos, que têm um único filho, que reside fora do Estado. A senhora estava despida em cima da cama, sem alimentação, higiene e apresentava uma ferida grande abaixo do pescoço, o que indicava a urgência de um atendimento médico. Solicitei à secretaria de saúde que enviasse uma equipe do Serviço de Atendimento Domiciliar (SAD), mas o retorno não foi o desejado”, denunciou.
Sônia Maia disse que os idosos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) têm o quadro de saúde agravado por falhas no serviço de regulação, responsável por indicar a unidade de saúde que receberá o paciente para atendimento. “A situação está tão séria, que hoje em dia, para adoecer é preciso ligar para regulação dizendo, olha, acho que vou adoecer tal dia a tantas horas. Consiga uma vaga pra mim. Isso porque vemos aqui a situação de pessoas que têm necessidade urgente de ser atendida e fica batendo nas portas dos hospitais, onde sempre ouvem que não tem vaga”, relatou.
Para a promotora não é possível se imaginar uma pessoa idosa que adoece e de repente precisa ser atendido, mas fica dentro de uma ambulância peregrinando entre um hospital e outro. “As unidades de saúde não estão fazendo, sequer, o atendimento emergencial. Dizem que não tem vaga e pronto”, retrucou.
A titular da promotoria destacou que a SMS precisa se preocupar em prestar assistência digna aos idosos carentes, de baixa renda e que se encontram em vulnerabilidade social e familiar. Além disso, ela afirmou que a secretaria nunca está acessível para o MP. “É muito bonito ver a gestão municipal promovendo encontros e seminários que falam dos idosos de vida ativa, saudáveis, que ainda estão com autonomia. Mas nossa preocupação deve ser com o idoso carente, doente, maltratado, que não tem assistência. Eu tenho feito um esforço grande. Muitas vezes pego o meu celular e ligo para a secretária, mas ela sempre está em reunião”, frisou.
De acordo com a promotora do Idoso, Sônia Maria de Paula Maia, de todos os atendimentos realizados na promotoria, os mais graves e que mais preocupam em relação à saúde, são os (não)atendimentos no Complexo Hospitalar Mangabeira Governador Tarcísio Burity – Ortotrauma (Trauminha), em Mangabeira. “O que temos de procedimentos na promotoria do idoso de pacientes que estão morrendo no Trauminha, justamente por falta de assistência médica, não é brincadeira. Isso é omissão de socorro”, denunciou.

Problemas no Ortotrauma se repetem

“Minha mãe, de 78 anos, caiu durante o banho, começou a sentir uma dor no peito e falta de ar. Chamei o Samu, que prestou os primeiros socorros, mas como ela precisava de um atendimento especializado em trauma e possivelmente de ser internada, fomos para o Trauminha, que negou o atendimento”. O relato é de uma filha que não quis se identificar temendo represálias, pois só conseguiu que a mãe fosse recebida na unidade hospitalar após fazer reclamação junto ao Ministério Público.
Ela está entre os 8 familiares de idosos que tiveram procedimentos instaurados na 1ª Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania e dos Direitos Fundamentais do Cidadão e do Idoso, em João Pessoa, somente neste ano, para apurar omissão de socorro ou falta de atendimento adequado no Complexo Hospitalar Mangabeira Governador Tarcísio Burity – Ortotrauma (Trauminha), dos quais quatro resultaram em óbito.
Os dados estão incompletos, uma vez que o sistema informatizado utilizado pelo Ministério Público da Paraíba (MPPB) não permite catalogar dados estatísticos com rapidez, sendo necessária a consulta individual de cada processo, o que exigiria um maior tempo.
A promotora Sônia Maia disse que a maioria dos casos estão relacionados aos idosos que sofrem fraturas. “Em decorrência da negligência hospitalar está havendo um índice muito alto de óbitos no Trauminha. Por exemplo, um idoso entra na unidade com uma fratura de fêmur. Passa uma semana, um mês, dois e acaba morrendo. Quando isso ocorre, as declarações de óbito vêm com infecção hospitalar, infecção pulmonar, outras causas e por fim aparece a fratura. No entanto, a fratura foi a causa inicial, mas como não houve o atendimento, a demora na providência ocasionou o óbito do idoso”, lamentou.
A promotora ressaltou que já precisou da ajuda policial para poder entrar no Trauminha, “porque eles ficam protelando sem querer deixar a gente do MP entrar, pois sabem que estamos lá para defender o direito do cidadão”.

Leia a reportagem completa na edição deste domingo do JORNAL DA PARAÍBA.