COTIDIANO
VLT de Campina Grande: como o trem marcou a história da cidade e o que prevê o novo projeto
Ferrovia chegou à cidade em 1907 e ajudou a impulsionar o comércio do algodão. Projeto atual prevê 14,8 km de extensão e 13 estações.
Publicado em 11/10/2026 às 9:30
Mais de um século depois da chegada da ferrovia, Campina Grande se prepara para uma nova etapa do transporte sobre trilhos. O projeto do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que está em obras, prevê 14,8 quilômetros de extensão e 13 estações, com trajeto por áreas como o Complexo Aluísio Campos, o Açude Velho e regiões próximas à universidades públicas. A cidade celebra neste domingo (11) 162 anos de emancipação políc
A proposta tem uma finalidade diferente da antiga linha férrea, inaugurada em 1907. Naquele período, o trem contribuiu para transformar a circulação de mercadorias e fortalecer a atividade comercial da cidade, especialmente com o transporte de algodão. O serviço de cargas permaneceu em atividade até o início dos anos 2000, mas a malha ferroviária entrou em processo de sucateamento após a redução das operações.
Para compreender como a ferrovia influenciou o desenvolvimento de Campina Grande e quais são as diferenças entre o antigo trem e o projeto do VLT, o JORNAL DA PARAÍBA conversou com os historiadores Erik Brito e Jefter Porto.
Quando o trem chegou a Campina Grande

A ferrovia chegou a Campina Grande em 1907, em um período de valorização do algodão no mercado internacional. Até então, segundo o historiador Erik Brito, o município ainda não figurava entre as principais cidades da Paraíba. A chegada dos trilhos mudou a rota de transporte da produção do interior e aproximou Campina Grande dos mercados ligados ao porto do Recife, em Pernambuco.
Na época, os tropeiros (pessoas que transportavam mercadorias em tropas de animais) percorriam caminhos entre os sertões e o litoral para levar a produção do interior. Com a ferrovia, o algodão passou a ser levado até Campina Grande, onde era comercializado e beneficiado antes de seguir para o Recife e ser exportado.
“A chegada da malha ferroviária foi um divisor de águas para o desenvolvimento de Campina Grande. Antes de 1907, o município sequer figurava entre as potências da Paraíba. Esse evento coincidiu com a valorização do preço do algodão no mercado internacional. A ponta de trilho simbolizou o fim da necessidade dos tropeiros precisarem se deslocar dos sertões para o porto do Recife, encurtando o trajeto em quilômetros e transformando a Rainha da Borborema no principal mercado de venda e beneficiamento do algodão, fomentando uma pujança nunca antes vista na região”, explicou Erik Brito.
O historiador Jefter Porto acrescenta que a principal finalidade da ferrovia era transportar cargas. A procura internacional por algodão crescia em meio a mudanças na produção e no consumo, como a Guerra de Secessão dos Estados Unidos, até então o maior produtor mundial do produto, o aumento da população e a expansão industrial no início do século XX.
Embora o transporte de cargas fosse a prioridade, o trem também levava passageiros e correspondências. O chamado Trem do Recife, por exemplo, transportava jovens da elite campinense que viajavam para estudar Direito na capital pernambucana, segundo Jefter.
“A lógica que trouxe os trilhos foi a da carga. No final da sua vida, a linha férrea passou a ser só para cargas. Mas, durante o auge, transportava passageiros e mercadorias. O beneficiamento e a distribuição do algodão, somados à condição de ponta de trilho e à localização, tornaram Campina um dos principais empórios do produto no país. Masgente também viajava. O chamado 'Trem do Recife' levava, por exemplo, jovens da elite campinense para estudar Direito na capital pernambucana”, explicou Jefter Porto.
Multidão, ameaça de cangaceiro e atraso marcaram primeira viagem do trem

Cerca de 4 mil pessoas aguardavam a chegada do trem à Estação Velha de Campina Grande em 2 de outubro de 1907. Segundo o historiador Jefter Porto, a locomotiva nº 3, da companhia inglesa Great Western, chegou enfeitada com folhas de palmeira e duas bandeiras do Brasil. A recepção teve bandas de música, girândolas e a presença de lideranças locais.
“Euforia completa. A estimativa é de que 4 mil pessoas esperavam a chegada da máquina número 3 da Great Western. Ela chegou enfeitada com folhas de palmeira e duas bandeiras do Brasil na frente. Além da curiosidade, pois muitos nunca tinham visto o trem, com relatos até de pessoas que tiveram medo do barulho”, contou Jefter.
A expectativa pela ferrovia, no entanto, não começou naquele dia. De acordo com Jefter Porto, a chegada do trem era defendida pela elite comercial e política de Campina Grande desde a década de 1870. O historiador cita o deputado Irineu Joffily, que defendia pela instalação da linha, e o então prefeito Cristiano Lauritzen, seu adversário político. Apesar das divergências, os dois concordavam sobre a importância de levar o trem à cidade.
“A primeira viagem nutriu várias expectativas e sonhos em Campina Grande. O trem era bastante desejado pela elite comercial e política da cidade, desde a década de 1870, o Irineu Joffily já intercedia em favor do trem para a cidade. Apesar de inimigos políticos, Lauritzen e Joffily concordavam nesse ponto. Havia uma simbologia muito grande para a época, o trem para uma cidade do interior era a esperança de conexões e de expansão das redes de comércio, era o símbolo de uma cidade tida como ‘moderna’”, explicou o historiador.
A espera também ficou registrada em fotografia. O historiador Erik Brito destaca a imagem dos passageiros reunidos na Estação Velha enquanto aguardavam a chegada da composição. (Veja a foto acima)
“Para nossa sorte ainda foi possível registrar uma foto do dia com os passageiros aguardando o trem na Estação Velha”, disse Erik.
No entanto, a recepção em Campina Grande contrastou com os problemas enfrentados durante a viagem. Segundo Jefter, havia rumores de que o cangaceiro Antônio Silvino e seu bando poderiam atacar a composição, mas a ameaça não se concretizou. O principal problema, de fato, foi o risco de superaquecimento da locomotiva, que precisava parar periodicamente para receber água. Em um trecho inclinado de Galante, a máquina também avançava devagar.

“O medo das ameaças de Antônio Silvino, que havia falado em virar o trem, que não acabou se concretizando. O grande problema era o superaquecimento da máquina que, periodicamente, tinha que parar para ser reabastecida com água. Além disso, havia o trecho de Galante que gerava receio nos passageiros da viagem inaugural, por ser um trecho inclinado, a máquina ia bastante lenta”, relatou Jefter Porto.
O historiador também recupera o relato de um jornalista do Diário de Pernambuco, enviado para cobrir a inauguração da linha. Segundo Jefter, o relato aponta que o trem saiu de Itabaiana às 15h20, já com 40 minutos de atraso, e chegou a Campina Grande por volta das 20h30. O repórter descreveu a viagem de forma negativa, criticando a falta de conforto e luxo e classificando a locomotiva como pequena e velha. Conforme o relato, a chegada ocorreu com três horas de atraso.
“Com 3 horas de atraso, o trem tão aguardado chega em Campina Grande. Apesar das expectativas locais, o jornalista do Diário de Pernambuco, mandado para cobrir a abertura da linha férrea, odiou a viagem e descreveu negativamente. Mas em Campina ninguém ligava pra isso, a euforia foi gigante”.
Trem impulsionou o comércio e a vida cotidiana

Depois de passar a fazer parte da rotina de Campina Grande, o trem ajudou a ampliar a circulação de mercadorias pela cidade. Com a possibilidade de transportar produtos em maior quantidade, o comércio ganhou espaço e, segundo o historiador Erik Brito, o aumento desse movimento também fez mais dinheiro circular no município.
Esse crescimento contribuiu para a formação de uma burguesia regional, que passou a buscar novos serviços e espaços de convivência. De acordo com o historiador, foi nesse contexto que surgiram locais como o Cassino Eldorado e, posteriormente, o Cinema Capitólio, com serviços que antes só eram encontrados nas capitais.
“Com o grande fluxo de mercadoria, também veio um grande fluxo de dinheiro, formando uma burguesia regional. Essa elite demandava de serviços requintados o que fomentou o surgimento de espaços como o Cassino Eldorado e, posteriormente, o Cinema Capitólio, serviços que antes só eram encontrados nas capitais”, afirmou.
Esses espaços passaram a fazer parte da vida social e política da cidade. Segundo Erik Brito, as oligarquias da região se reuniam nesses locais para tomar decisões políticas e acompanhar as novidades que circulavam nas grandes cidades do mundo.
Por que o trem perdeu espaço em Campina Grande
A ferrovia que durante décadas transportou mercadorias e passageiros por Campina Grande perdeu espaço ao longo do século XX. Segundo o historiador Erik Brito, essa mudança ocorreu em diferentes partes do Brasil, em um período em que as políticas de desenvolvimento passaram a priorizar o transporte rodoviário e a expansão das estradas.
“Não só em Campina Grande, mas em todo o Brasil, o transporte ferroviário começou a perder força em meados do século XX por conta das políticas desenvolvimentistas que consideravam o trem como uma tecnologia ultrapassada. A revolução automobilística estadunidense teve muita força nesse sentido, disseminando a ideia que o futuro eram os carros. Dessa forma, a malha ferroviária brasileira entrou em um período de inércia enquanto as estradas começaram a ser abertas em larga escala em todo o país”, explicou o historiador.
Em Campina Grande, o trem de carga continuou em atividade até o início dos anos 2000. Depois, uma linha ainda foi mantida pelo projeto municipal Trem do Forró, que fazia o percurso até Ingá durante o período junino. De acordo com Erik, porém, a falta de manutenção tornou o trajeto inviável e contribuiu para o sucateamento da malha ferroviária.
Com a interrupção dessas atividades, as antigas estruturas ligadas ao transporte sobre trilhos também passaram por um processo de deterioração. Parte dessa história, no entanto, permanece na paisagem e na memória da cidade.
“Sem manutenção, esse percurso passou a se tornar inviável, fazendo com que a malha entrasse em processo de sucateamento. As estações também entraram em processo de deterioração. Hoje, o trem não passa de uma lembrança distante de uma geração que ainda o viu em circulação, reservado apenas aos livros de história, ao Museu do Algodão, e duas instalações semi abandonadas, muito distante da representatividade que elas tiveram no século passado”, disse Erik.
Uma das construções que preservam a memória da antiga ferrovia em Campina Grande é a Estação Velha, onde funciona o Museu do Algodão. O espaço reúne objetos, documentos, fotografias e equipamentos relacionados à história da cultura algodoeira e ao desenvolvimento da cidade.

O que estudo prevê para o VLT de Campina Grande
O projeto do VLT de Campina Grande prevê 14,8 quilômetros de extensão, 13 estações e quatro locomotivas. O sistema foi planejado para atender diferentes áreas do município, incluindo pontos de interesse como o Complexo Aluízio Campos, o Estádio Amigão, o Açude Velho, a Avenida Floriano Peixoto e áreas próximas à Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e à Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

As características previstas foram definidas em um Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental realizado pela Prefeitura de Campina Grande, por meio das secretarias de Obras, Planejamento e Assistência Social.
O estudo estabeleceu os seguintes parâmetros para o projeto:
- Extensão: 14,8 quilômetros de via permanente, ou seja, dos trilhos destinados à circulação dos trens;
- Estações: 13;
- Frota prevista: quatro locomotivas;
- Intervalo entre os trens: 17 minutos nos horários de pico. Esse intervalo é chamado de headway;
- Capacidade por hora: 2.109 passageiros por sentido a cada hora;
- Capacidade diária de referência: 48.408 passageiros.
A quantidade diária de passageiros foi estimada com base em diferentes percentuais de ocupação dos lugares ofertados pelo sistema. O estudo considerou três cenários:
- 60% de ocupação: estimativa de 29 mil passageiros por dia;
- 40% de ocupação: estimativa de 19,3 mil passageiros por dia;
- 30% de ocupação: estimativa de 14,5 mil passageiros por dia.
Em nota, a Secretaria de Planejamento afirmou que esses números são projeções do estudo de viabilidade, e não registros de passageiros transportados. A quantidade efetiva dependerá da demanda e das condições de funcionamento do sistema.
O levantamento também considerou a população que vive a até um quilômetro das estações previstas. Segundo o material da Seplan, esse público foi estimado em 47.8192 pessoas, com base nos dados populacionais de 2010.
A previsão divulgada pela Prefeitura de Campina Grande é de que as obras de infraestrutura do VLT sejam concluídas no segundo semestre de 2027.

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