‘Ser diferente é uma afronta’, reflete Vanessa da Mata sobre preconceito

Artista se apresenta nesta sexta (3) em João Pessoa com novo show.

Com 15 anos de carreira, Vanessa da Mata tem material mais do que suficiente para abrir sua ‘caixinha’ de recordações e de novidades ao público. E é isso que ela vem fazendo no mais recente show ‘Caixinha de música’, que chega a João Pessoa na próxima sexta-feira (3) para uma apresentação única na Domus Hall, a partir das 22h.

“É introspectivo, mas tem muita festa”, conta a artista, em entrevista ao JORNAL DA PARAÍBA pelo telefone. “A gente chama de baile preto, porque colocou diversas nuances eletrônicas, mas com uma pegada percussiva muito forte. Ele está muito diversificado, tem músicas que fizeram sucesso — que não deixei de colocar —, tem as músicas novas, está tudo lá. É um dos shows mais bonitos da minha carreira”, continua, sobre a turnê baseada no DVD homônimo.

E, em se tratando de beleza, vale ressaltar que o encanto da trajetória da mato-grossense perpassa também seus posicionamentos firmes, que nunca passaram despercebidos. Isso tanto no passado, quando deixou a pequena cidade de Alto das Graças (MT), no início dos anos 90, para desbravar o país e se estabelecer como artista, quanto no presente, com sua maneira de se expressar — artistica e politicamente.

A expressão mais evidente, que já virou marca registrada da cantora, são os cabelos. Crespos e volumosos, complementando sua figura esguia, pele morena e voz potente que embala composições fortes, eles servem, sobretudo, como um ato político de rebeldia contra as imposições estéticas da sociedade, observa Vanessa. “Ser diferente é uma afronta”, comenta ela sobre a aparência, sem deixar de mencionar o preconceito que já vivenciou.

“Sempre enfrentei. Pessoas negras mesmo já me xingaram no meio da rua, numa época em que alisavam mais. Lembro de uma vez quando estava na frente de um supermercado em São Paulo e passaram quatro meninas negras de carro gritando ‘não tem pente não? Cabelo de vassoura!’ Homens carecas também. Mas nesse caso eu acho que é inveja”, conta, tentando abafar uma risada tímida. “É uma insegurança em ver uma pessoa exótica e bem resolvida”.

E Vanessa se diz bem resolvida não somente em relação ao visual, mas também no que tange às reações do público. Por isso, revela não se incomodar com as manifestações da plateia em seus shows, sinalizadas principalmente por gritos contra políticos. “Outro dia gritaram ‘fora, Temer!’ e eu gritei de volta ‘fora, todos, fora, tudo!’, porque está complicado”, admite, às gargalhadas.

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“Tem que renovar tudo, renovar muito. E acho que é extremamente normal. O brasileiro faz pouco ainda. Só agora que está começando a acordar”, analisa, trazendo à tona o que pensa sobre as legendas partidárias. “É muito inocente um indivíduo comum defender qualquer partido. A gente não tem a menor noção do que acontece lá, porque há um mecanismo corrupto há muito tempo. Não dá pra defender, tem é que deixar a polícia tomar conta”.

‘Pós-feminista’

Vanessa canta e compõe sobre o Brasil, sobre o abstrato e o palpável. Fala poeticamente sobre dores e amores, mas com extrema delicadeza e feminilidade. E não é por mero acaso. Para ela, a construção minuciosa e bem sucedida de sua obra é uma maneira de provocar uma indústria que comumente reverencia mais o universo masculino. “Intelectualmente, os homens são mais respeitados”, acredita.

“Mas com certeza é uma fase em que a mulher está começando a se expressar mais fortemente”, acrescenta, reconhecendo, também, seu próprio empoderamento, que se delineou desde cedo. “É engraçado porque eu fico vendo muita coisa do machismo, mas penso que sempre fui uma mulher pós-feminista, isso desde criança. Eu não lutava para conquistar uma possibilidade, eu sempre fui lá e conquistei”.

Apesar disso, Vanessa frisa que a ideia do machismo ser algo corrente sempre a assustou. “Era uma coisa tão longe de mim, que às vezes eu ficava tão impressionada e não sabia nem como reagir. É algo tão fora da minha concepção com ser humano. E não só o machismo, mas a homofobia, o racismo, outros preconceitos, é algo quase primitivo”, finaliza. 

 

Serviço:
Vanessa da Mata – Caixinha de Música
Quando: Sexta-feira, dia 3 de novembro, às 22h
Onde: Domus Hall, Av. Gov. Flávio Ribeiro Coutinho, 220 – Lot. Oceania II, João Pessoa/PB
Ingressos: entre R$ 50 e R$ 600
Vendas: Site Ingresso Rápido e bilheteria da Domus Hall