Opinião: Elza, nossa voz de mulher preta, por Silvia Torres

Foto: Divulgação

Quando soube que Elza Soares tinha morrido, pensei nas diversas canções que ainda viriam com a voz rasgada de quem agiu com bravura, com raça, brigando contra preconceitos. Do quanto ela representa para mulheres negras, chefes de família, faveladas, artistas, escritoras, com ou sem oportunidade nessa vida.

Apesar do fim do corpo, não consigo conceber o fim da voz. É um legado que mexe dentro da gente e ecoa feito grito manifesto, de uma mulher persistente para o “manter-se viva”, apesar do meio, por inúmeras vezes, não ajudar.

Elza é o reflexo de muitas mulheres pelo Brasil. Quando a voz dela incorpora uma canção, tem toda a acústica social que vem junto, dando a devida dimensão ao rouco que estremece aqueles que fazem cara de paisagem para vidas negras, que ignoram, que execram direitos sociais, políticos e econômicos de uma nação.

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Muita gente se enxerga em Elza e no peso de sua voz. Que traz emoção, dor, paixão, resistência. Nela, vemos nossas mães, avós, irmãs, filhas. E percebemos uma identidade que permanece em luta constante por reafirmação, por respeito.

O que queremos com a voz de Elza? É que continuemos sendo ouvidas. Ou pelo menos causando ruído aos corações cruéis, ignorantes e criminosos de quem pratica o racismo, de quem subestima a mulher e age com homofobia.

Já vi Elza em mulheres, personagens de muitas entrevistas que fiz. Muitas que conheci e me encantei e me fizeram passar horas entre a entrevista e o processo de construção do texto para me arrebatar de influências.

Elza, que você continue, para o sempre de cada uma de nós, uma mulher dura na queda. E que o seu cantar continue sendo o som de nossos pulsos firmes e erguidos contra a injustiça!

Você não vai morrer em nossas vozes pretas.