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CULTURA

João Gomes homenageia Luiz Gonzaga em 'Dominguinho' com frase dita pelo Rei do Baião em 1972

Frase é dita por Luiz Gonzaga em álbum Volta Pra Curtir, onde canta e conta histórias regadas a muito forró.

Publicado em 03/06/2026 às 12:00


					João Gomes homenageia Luiz Gonzaga em 'Dominguinho' com frase dita pelo Rei do Baião em 1972
João Gomes repete em 'Dominguinho' frase dita por Luiz Gonzaga em 1972: 'referência direta'.

Quando João Gomes triunfou e colocou no mundo o piseiro que a sua voz cantava, poucos esperavam que, anos depois, ele figuraria como um dos principais nomes do forró - um forró remanescente, que busca raiz, que se reinventa, e que tenta, a todo instante, não morrer. Usou o sucesso para ser referência. Mas, principalmente, para relembrar as referências. No volume 2 de "Dominguinho", produção que ganhou o mundo e encantou o Brasil de Norte a Sul, João Gomes faz uma referência expressa a Luiz Gonzaga e deixa claro, agora mais do que nunca, que as suas raizes são mais profundas do que a gente imagina.

Em uma escolha acertada, com o São João batendo na porta, o trio colocou no repertório a música Numa Sala de Reboco, composta por Luiz Gonzaga, mas também pelo paraibano de Sumé, José Marcolino. Durante a canção, enquanto quem escuta arrasta o pé ou se emociona com a sensação de estar sempre voltando pra casa, João Gomes diz: "se eu nascesse de novo, eu queria nascer forrozeiro, nordestino..."

A frase é uma maneira muito simples de dizer que, se tivesse a chance, faria tudo igual, teria as mesmas raízes, contaria a mesma história.

Em abril de 1972, Luiz Gonzaga abriu o caminho dessa frase, em seu álbum Volta Pra Curtir, onde conta e canta histórias de uma vida regada a muito forró, resistência e amor.

"Se eu nascesse de novo e pudesse escolher, mais do que eu sou eu não queria ser". (Luiz Gonzaga, 1972)

E o Rei do Baião segue, relembrando toda a sua trajetória, seus feitos, suas lutas e suas glórias. O objetivo, sempre o mesmo: queria ser o Rei do Baião, cantar os forrós que criou e levar para o mundo a tradição de ser nordestino. (Veja trecho completo no fim da matéria)

Quando João Gomes, em 2026, recupera a mesma frase, não o faz sem querer ou por coincidência.

Citação

"Foi uma referência direta e feita com muito carinho. Quando eu canto 'se eu nascesse de novo, queria ser forrozeiro, nordestino…', tem muito da admiração que eu tenho por Luiz Gonzaga e por tudo o que ele representa pra nossa cultura. Gonzagão abriu caminhos não só pro forró, mas pra forma como o Nordeste passou a ser ouvido e respeitado dentro da música brasileira".

João Gomes

A influência de Luiz Gonzaga na história do forró e da cultura popular não tem precedentes. O título de rei não foi à toa. Nos deu o baião de presente, mas, principalmente, o espalhou por todo o país. Fez o nosso sotaque e a nossa expressividade cultural ganhar o mundo. Cantou histórias de sofrimento, de alegria, de paixão, de amor, de família e de tradição. Deixou legado, mas, antes de tudo, deixou caminhos. Luiz Gonzaga criou nossa identidade forrozeira e nos fez compreender que nossa raiz jamais será esquecida.

Os músicos, hoje, levam em seus repertórios muito do que Luiz Gonzaga fincou em toda a sua carreira. A sanfona chora com alegria e o ritmo zabumbado faz qualquer nodestino sentir saudades - de casa, do passado, da fogueira acesa, da quadrilha na rua, da festa dentro de cada. É o que João Gomes recupera quando escolhe voltar em 1972 para referenciar - e reverenciar - Gonzagão. Ele decide voltar para casa. Para as suas raízes. E leva consigo um pouco de todos nós.

Veja fala completa de Luiz Gonzaga em 1972

Eu sou um caboclo feliz...

Rá!... Se eu nascesse de novo, eu queria ser o mesmo Mané Luiz!.

Se eu nascesse de novo e pudesse escolher, mais do que eu sou eu não queria ser.

Eu queria nascer na Fazenda da Caiçara, lá em Exu, Pernambuco, mermo na divisinha do Ceará! É por isso que eu costumo dizer que uma banda minha é pernambucana, a outra banda é cearense!

Quando eu... Rá!... Quero nem dizer!... Quando eu ficasse taludin assim, eu queria logo comprar uma sanfona, pra ajudar meu pai nos toque... lá nos forró!... Eu queria ser filho de Januário mesmo, e de Dona Santana!... Mais do que eu sou eu não queria ser, não, senhor!

Se eu nascesse de novo e pudesse escolher... Rá!... Quando chegasse 1930, eu entrava no Colégio. Dezoito anos de idade... Colégio do pobre é o Exército Brasileiro! Sentava praça!... Rá, rá... Fazia revolução como o diabo, não dava nem um tiro! Eita, Brasil bom danado!...

Rá!... Eu queria ser o Rei do Baião!... Mas... num era mole não, meu irmão! Quando eu chegasse no Rio de Janeiro, em 39, eu ia tocar na zona violenta, da pesada, lá no Mangue! Correndo o pires nos gringo! Queria ser tudo isso! Oxente, eu queria ser o Rei do Baião!...

Até que, uma certa noite, chegasse lá, assim, um grupo de cearenses. Diziam que eram universitários. Sei lá o que era isso! Eram estudante mesmo! Depois de me agradarem muito, fizeram uma exigência:

-- Olha, caboclo... quando a gente voltar aqui outra vez, nesse lugar, nós só damo dinheiro a você se você tocar um negócio lá daqueles pé de serra! Cê num é sertanejo? Ce num é lá da Serra do Araripe?

Eu digo: -- Sou!...

-- Tá feita a exigência!

Aí, eu fiz uma recaptulação. Organizei esse numerozin que eu entrei tocando com ele aqui agora, o Vira e Mexe. É... Foi o primeiro!... Quando os cearenses chegaram, eu disse pra eles:

-- Olha, tenho um negocin aqui pra empurrar em vocês.

-- Então manda!

Lasquei brasa!...

-- É isso aí, caboclo!

Naquele tempo era "caboclo". Agora é "bicho"!

-- É isso mesmo! Agora você pode até... visitar nossa república.

-- Que diabo é isso?

-- É uma república lá na Lapa. Da pesada. Lá é que é a pesada mermo! Só de cearense! E você tá convidado pra ir lá, tocar pra nós!

E eu fui, tava agradando! Rá, rá!... Fui conhecer a república dos cearenses. Quando eu cheguei lá, era a maior bagunça do mundo! Já viu? Rá!... República de estudante, inda mais cearense?...

Aí, o Winton de Blade disse assim:

-- Apresento aí o Presidente da República!

Sabe quem era?... Armando Falcão! O home quase foi Presidente da... Quase foi Presidente da República mermo, rapaz!... Bacharel!... Rá!... Deputado, líder, ministro!... Foi tudo isso! Faltou pouco pra ser Presidente da República!

E, se eu nascesse de novo e pudesse escolher, quando chegasse o dia – 24, hoje, né? – 24 de março, de 1972, a essa horinha mermin... cês querem saber onde é que eu queria estar? Era aqui, com vocês, no Teatro Tereza Rachel, enrolando vocês na conversa, contando essa história, com a presença do deputado Armando Falcão, que tá aqui entre nós... que não me deixa mintir!... Foi no governo de Juscelino, que ele manobrou! Manobrou na política, meu irmão. Tem nada não! Nós tamo aí, o senhor na sua e eu na minha... Agora, o senhor tá aguentado aí... tá sentado aí, aguente meu negócio, que lá vai chumbo, caboco!...

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Dani Fechine

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