Há profunda ironia na contaminação de Marcelo Queiroga pelo coronavírus. É o desfecho da passagem de Bolsonaro por Nova York

Não se desdenha da saúde de ninguém. Marcelo Queiroga não pôde voltar com a comitiva que levou o presidente Jair Bolsonaro à Assembleia Geral da ONU porque, em Nova York, testou positivo para a Covid-19. Ficou lá para uma quarentena de duas semanas. Claro que a todos cabe torcer pela plena recuperação do ministro da Saúde. Mas é impossível negar que há uma profunda ironia no fato.

Quando eu era menino, perguntei à minha mãe o que eram símbolos. Ela disse que eram coisas pequenas que falavam sobre coisas grandes. Parecia complicado para o entendimento de uma criança, mas a resposta ficou para sempre muito bem guardada na minha memória. Símbolos. Coisas pequenas que falam sobre coisas grandes.

Terminei a terça-feira (21) pensando num símbolo que enxerguei no discurso de Bolsonaro na ONU. O símbolo da ausência de inteligência que há em seu governo e em tantos que ainda o aplaudem. Sim. Foi no instante em que o presidente disse que salvou o Brasil do socialismo. Que socialismo? Socialismo de quem? Ora, se nem Lula é, a rigor um socialista (e não é mesmo!), imaginem Michel Temer, o presidente que antecedeu Bolsonaro.

Conheci muitos comunistas ao longo da vida (ainda conheço alguns poucos), e eles não cansavam de dizer que, no fundo, o que havia no PT e em seu líder era um projeto de social-democracia. Lula – todos sabemos – governou com banqueiros e empreiteiros e teve ao seu lado o que havia de pior na classe política brasileira. Está muito longe, portanto, de ser socialismo o que ofereceu de melhores condições de vida a camadas completamente desfavorecidas da população do país.

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Aí vem Bolsonaro, em 2021, na ONU, falando para o mundo, dizer que o Brasil estava à beira do socialismo. Burrice? Ignorância? Má fé? Seja o que for, é um triste símbolo do que temos hoje à frente do governo brasileiro. Os que enaltecem as suas mentiras não estudaram, não leram e não têm a menor ideia do que é socialismo nem comunismo.

Sobre Marcelo Queiroga. Há um vexame atrás do outro em sua passagem pelo Ministério da Saúde. Uma vergonha atrás da outra, sobretudo para nós, os paraibanos, que somos seus conterrâneos. Um gesto de subserviência atrás do outro ao presidente, daquela pior subserviência que existe nas relações políticas e que precisa ser revista em nome dos imprescindíveis avanços do nosso processo civilizatório.

Ao discursar em Nova York, Bolsonaro foi chamado de mentiroso – assim mesmo! – pela imprensa brasileira. A Marcelo Queiroga coube protagonizar um símbolo da ida do presidente à ONU: o momento em que fez um gesto obsceno para um grupo de manifestantes. O desfecho de tudo isso – que não se deseja, mas aconteceu – foi Queiroga, logo ele, o homem responsável pelo combate à pandemia no Brasil, ter testado Covid-19 e ter sido impedido de voltar na comitiva presidencial.

A contaminação desautoriza ao menos parcialmente o discurso do ministro Marcelo Queiroga. Para ele, o palco onde aconteceu foi o pior possível.