Não é possível que a população do Brasil só tenha pouco mais de um por cento de homossexuais

Há algum tempo, antes da pandemia, entrei na redação, e estava sendo servido um bolo. Comi uma fatia e comentei que era delicioso. Um integrante da equipe disse: “Fui eu que trouxe”. Perguntei quem fez, e ele respondeu: “Meu marido”. Que beleza. O cara dizer que é casado com um homem sem qualquer problema.

Outro dia, estava conversando com uma jovem mulher e, no meio do diálogo, ouvi dela a seguinte frase: “Eu e minha companheira…”. Novamente achei muito legal o modo com que ela tratava da sua orientação sexual.

De uma outra vez, numa conversa com um amigo, disse que sempre soube da homossexualidade dele. Meu comentário foi muito mal recebido. O amigo, provavelmente com algum sofrimento, não saíra do armário.

Nesta quarta-feira (25), li o seguinte na Folha de S. Paulo. Transcrevo:

“Levantamento feito pela primeira vez pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) aponta que 94,8% das pessoas de 18 anos ou mais no país se declaram heterossexuais. Entre os entrevistados, 1,8% se disse homossexual (1,13%) ou bissexual (0,69%).

Divulgados nesta quarta-feira, os dados referentes à orientação sexual autodeclarada da população foram levantados em um módulo inserido na PNS (Pesquisa Nacional de Saúde), realizada em 2019, em parceria com o Ministério da Saúde.

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A pesquisa foi realizada em 108 mil domicílios, por amostragem probabilística. De forma inédita, os entrevistados foram questionados sobre sua orientação sexual, com seis opções de resposta —heterossexual, homossexual, bissexual, outra, não sabe e recusou-se a responder.

Cerca de 2,3% escolheram não responder, porcentagem superior à soma de homossexuais e bissexuais. Outros 1,1% disseram que não sabiam e 0,1% afirmaram que têm outra orientação sexual (como assexual e pansexual, por exemplo).”

Será que a população do Brasil só tem pouco mais de um por cento de homossexuais? Parece um número baixo, que talvez revele o quanto ainda é difícil sair do armário. É uma pena. O nosso processo civilizatório pede que seja de outro modo. Há, sim, alguns avanços, mas ainda são insuficientes.

É bom conviver com gays que assumem que são gays. É triste conviver com gays que não podem assumir que são gays. O mundo será melhor quando não for mais assim.