SILVIO OSIAS
A ditadura militar brasileira como foi vista pelo cinema
Coluna traz lista de filmes lançados a partir de 1982.
Publicado em 19/01/2026 às 7:06

Depois da vitória no Globo de Ouro, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, segue em exibição nos cinemas e em sua campanha para ser indicado ao Oscar.
O filme do cineasta pernambucano se passa em 1977, em plena ditadura, e pode ser um bom motivo para vermos ou revermos filmes sobre o Brasil que os governos militares mergulharam nas sombras de 1964 a 1985. Seguem algumas sugestões.
Em 1984, ano da campanha das Diretas-Já, a ditadura militar completava duas décadas e vivia seus estertores quando dois documentários foram lançados: Jango, de Sílvio Tendler, e Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho.
Jango conta a história do presidente João Goulart e sua deposição sob a perspectiva da elite política. Cabra Marcado Para Morrer se debruça sobre a tragédia da família do líder camponês João Pedro Teixeira sob a perspectiva do povo.
Também é de 1984 o documentário O Evangelho Segundo Teotônio, do cineasta paraibano Vladimir Carvalho. É um retrato de Teotônio Vilela, senador alagoano que se fez peça fundamental nas lutas pela redemocratização.
O drama Nunca Fomos Tão Felizes, de Murilo Salles, é outro filme de 1984. Num apartamento no Rio de Janeiro, um jovem sem mãe pouco sabe do seu pai, com quem passa a viver. O pai é um militante político perseguido pelo regime militar.
Roberto Farias, veterano do cinema brasileiro, realizou Pra Frente Brasil em 1982 durante o governo de João Figueiredo, o último do ciclo militar. O filme, que sofreu ação da censura, denuncia a tortura, mas livra um pouco a cara dos militares.
Dirigido por Sérgio Rezende, Lamarca, de 1994, é sobre Carlos Lamarca, que trocou a vida na caserna pela luta armada. Muitos anos depois, em 2019, Wagner Moura contou, em Marighella, a história do líder guerrilheiro Carlos Marighella.
Paulo Betti fez Carlos Lamarca, executado na Bahia em 1971. Seu Jorge fez Carlos Marighella, executado em São Paulo em 1969. Como Lamarca, Marighella também foi um militar que trocou o Exército pela luta armada contra a ditadura.
Dirigido por Bruno Barreto, O Que é Isso, Companheiro? (1997) é baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira, que narra a história do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Gabeira foi um dos sequestradores.
Lamarca não é o único filme de Sérgio Rezende sobre a ditadura militar. Em 2006, ele realizou Zuzu Angel. Stuart Angel, filho da estilista Zuzu, foi morto pela ditadura. Na luta para localizar o filho, a própria Zuzu também foi morta pelo regime militar.
Além de Zuzu Angel, há pelo menos mais três filmes sobre a ditadura realizados em 2006: Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Caos Hamburger, e Sonhos e Desejos, de Marcelo Santiago.
O mais interessante deles, Batismo de Sangue, baseado no livro de Frei Betto, é sobre o frade dominicano brasileiro Tito Alencar. Frei Tito se envolveu com o grupo de Carlos Marighella, foi preso e, mais tarde, se matou quando estava exilado na França.
Realizado em 2005 por Toni Ventura, Cabra Cega tem a ação concentrada num "aparelho" onde está escondido um militante da luta armada. Num clima claustrofóbico, é cheio de referências musicais que remetem ao início da década de 1970.
Em 2024, temos Ainda Estou Aqui, que levou milhões de espectadores aos cinemas. Por seu desempenho, Fernanda Torres ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz, e Ainda Estou Aqui conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional.
Ainda Estou Aqui é, sob muitos aspectos, uma grande vitória para o cinema brasileiro e um admirável e corajoso libelo contra a ditadura militar iniciada em 1964.

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