SILVIO OSIAS
Amanhecemos sem Laura Cardoso, anoitecemos sem Glória Menezes
O Brasil perde em poucas horas duas das maiores referências de sua teledramaturgia.
Publicado em 19/08/2026 às 6:45 | Atualizado em 19/08/2026 às 6:57

Terça-feira, 18 de agosto de 2026. Amanhecemos com a notícia da morte de Laura Cardoso. A atriz nascida em São Paulo estava com 98 anos.
Terça-feira, 18 de agosto de 2026. Anoitecemos com a notícia da morte de Glória Menezes. A atriz nascida no Rio Grande do Sul estava com 91 anos.
Na GloboNews, a atriz Lília Cabral disse: "Estamos perdendo nossas referências". Isso mesmo. É o Brasil perdendo suas grandes referências.
Na minha infância, numa revista, encontrei uma sequência de fotos que, reunidas, de certa forma contavam a história do filme O Pagador de Promessas.
Recortei as fotos e as guardei por muito anos. Eram expressão do meu desejo de ver o filme que, em 1962, deu a Palma de Ouro ao Brasil, no Festival de Cannes.
Só conseguir ver O Pagador de Promessas no relançamento do décimo aniversário, quando já havia lido o texto original de Dias Gomes para o teatro.
Lá estava Leonardo Villar, o Zé do Burro, carregando a sua cruz. Lá estava Glória Menezes, como Rosa, sua mulher, àquela altura, com 28 anos.
Glória Menezes é sempre lembrada pelas muitas novelas que fez na Globo. Mas não é de nenhuma novela da Globo a primeira lembrança que tenho dela.
A Glória Menezes que chamou minha atenção foi aquela que fazia dois papéis em O Grande Segredo. Ela era Marta e Célia na sua última novela na Excelsior.
A primeira vez que vi Laura Cardoso foi em Corisco, O Diabo Loiro, um dos muitos filmes sobre cangaço realizados no Brasil durante a década de 1960.
Em Corisco, Laura Cardoso fazia um papel secundário no meio de um elenco que tinha Maurício do Valle, Leila Diniz e Milton Ribeiro como protagonistas.
A Laura Cardoso que passei a arquivar na minha memória afetiva já é a das novelas da Globo. Atriz extraordinária de uma geração de atores e atrizes excepcionais.
Se eu fosse escolher uma Laura Cardoso que a Globo fixou no imaginário de milhões de brasileiros, seria, certamente, a mãe das gêmeas de Mulheres de Areia.
Mulheres de Areia, Tupi, 1973/1974. As gêmeas Ruth e Raquel. Ruth, boa. Raquel, má. Eva Wilma faz as duas. Isaura, mãe das gêmeas, é Lucy Meirelles.
Mulheres de Areia, Globo, 1993. Glória Pires faz as gêmeas. A Isaura, a mãe delas, Laura Cardoso dá uma dimensão que a personagem da primeira versão não tinha.
Não seria justo, aqui, comparar talentos, desempenhos. Laura Cardoso e Glória Menezes estão no topo da nossa teledramaturgia, esse patrimônio do Brasil.
Mas se faz necessário reconhecer que Glória, mais do que Laura, conquistou uma dimensão que coube a raríssimos profissionais projetados pela televisão brasileira.
Numa novela mais cômica do que dramática, o brilho de sua atuação nos deixava atônitos. Ela era a Rosemere de Brega & Chique, que a Globo exibiu em 1987.
E, em Glória, para ampliar ainda mais a sua dimensão, a vida real se fundiu à ficção por causa do seu casamento com Tarcísio Meira, outro gigante da arte de atuar.
Glória e Tarcísio. Tarcísio e Glória. Um amor longevo fora das telas. Somado aos papéis que interpretaram, tantas vezes juntos, nas tramas das telenovelas.
Laura Cardoso. Glória Menezes. Essas mulheres pertencem à geração que inventou a televisão brasileira. Que aprendeu fazendo. São verdadeiras construtoras.
"Estamos perdendo nossas referências". A fala de Lília Cabral à GloboNews dizia respeito muito especificamente ao seu ofício e à sua relação com quem veio antes dela.
O Brasil está perdendo suas grandes referências. Aí, estamos indo mais longe. Rico e belo, esse Brasil que nos transforma em testemunhas dessas figuras imensas.
Tão rico e belo quanto pobre e feio, esse Brasil que não resolve seus impasses mais profundos. Tristemente, o aplauso à ficção nunca alcança a vida real.

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