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SILVIO OSIAS

Arthur Moreira Lima foi um gigante num Brasil de grandes pianistas

Músico que morreu aos 84 anos transitou entre o erudito e o popular.

Publicado em 31/10/2024 às 6:50 | Atualizado em 31/10/2024 às 7:04


				
					Arthur Moreira Lima foi um gigante num Brasil de grandes pianistas
Foto/Reprodução.

O Brasil perdeu um dos seus grandes músicos na noite desta quarta-feira, 30 de outubro de 2024. O pianista Arthur Moreira Lima morreu em Florianópolis aos 84 anos. Ele tinha câncer no intestino.

A morte de Arthur Moreira Lima me faz pensar, em primeiríssimo lugar, nos grandes pianistas brasileiros que se projetaram tocando música erudita.

Nesse quesito, a geração de Arthur Moreira Lima foi pródiga. Deu ao mundo pianistas extraordinários. Esse que acabamos de perder era um verdadeiro gigante.

Faço justiça mencionando seus nomes: Arthur Moreira Lima (1940 - 2024), Nelson Freire (1944 - 2021), Jacques Klein (1930 - 1982), Roberto Szidon (1941 - 2011), Antônio Guedes Barbosa (1943 - 1993), João Carlos Martins (1940) e Arnaldo Cohen (1948).

Há músicos de formação erudita que nunca abandonam esse território. Há os que migram para o popular e não voltam mais. E há os que se dedicam às duas coisas, como se fossem uma só. Era o caso de Arthur Moreira Lima.

Arthur Moreira Lima foi viver e morrer em Florianópolis, mas, nascido no Rio de Janeiro em 16 de julho de 1940, tinha alma genuinamente carioca.

Foi torcedor apaixonado do Fluminense, amava o samba e o choro e, numa fase da sua vida, tinha o brizolismo como verdadeiro credo político.

Arthur Moreira Lima começou a estudar piano na infância, e ainda era criança quando deu seus primeiros concertos. Depois foi estudar em Paris e em Moscou. Tocou em grandes salas de concerto do mundo, na Europa e nos Estados Unidos.

Na música erudita, se especializou em Chopin. Foi internacionalmente reverenciado como excepcional intérprete do compositor polonês. Gravou a obra do mestre do romantismo.

Ia de Mozart, mestre absoluto do clássico no século XVIII, a Villa-Lobos, que se dedicou ao nacionalismo contemporâneo do século XX. Entre um e outro, passava pelo jazz que havia na música exuberante do judeu novaiorquino George Gershwin.

Arthur Moreira Lima brilhava fazendo Chopin pelo mundo. Um outro brasileiro, com a mesma idade, brilhava fazendo Bach. Seu nome: João Carlos Martins.

Arthur Moreira Lima, do Rio de Janeiro. João Carlos Martins, de São Paulo. No início dos anos 1980, fizeram - e gravaram ao vivo nos Estados Unidos - um negócio inusitado: Bach Meets Chopin - Bach Encontra Chopin.

Arthur tocava uma de Chopin. João tocava uma de Bach. Arthur tocava mais uma de Chopin. João tocava mais uma de Bach. E, nessa alternância, o fascinante programa seguia num diálogo tão belo quanto improvável entre dois mestres da música universal.

No Brasil, Arthur Moreira Lima mergulhou no piano de Ernesto Nazareth nas gravações antológicas e imprescindíveis que fez para o selo Marcus Pereira. Mais de uma geração conheceu Nazareth por causa do resgate feito por Arthur Moreira Lima.

Arthur Moreira Lima não tinha preconceitos. O virtuoso que tocava Chopin pelo mundo fazia das suas no Brasil: aparecia com Elomar na Parcelada Malunga e outra vez com Elomar (mais Paulo Moura e Heraldo do Monte) no ConSertão.

Trabalhou com o Época de Ouro, que um dia foi o conjunto de Jacob do Bandolim, e gravou um disco com Nelson Gonçalves - O Boêmio & O Pianista.

E tem Pescador de Pérolas, álbum no qual a voz de Ney Matogrosso se encontra com o piano de Arthur Moreira Lima, o sax de Paulo Moura e o violão de Raphael Rabello.

Vi Arthur Moreira Lima ao vivo incontáveis vezes. Fazendo Chopin, fazendo Nazareth. Ou como solista convidado da Orquestra Sinfônica da Paraíba, fazendo o célebre Concerto para Piano e Orquestra de Tchaikowsky ou a Rapsódia in Blue de Gershwin.

Grande músico para ouvir nos discos. Grande performer para ser visto no palco. Carismático, conversava com o público, contava histórias, tinha um charme e uma graça de um Rio de Janeiro que certamente não existe mais.

A morte de Arthur Moreira Lima me trouxe lembranças de décadas atrás. Estive muitas vezes com ele. Publiquei em A União uma longa entrevista feita na mesa de um restaurante chinês em Tambaú. Havia sedução e inteligência de sobra na sua conversa.

Estamos perdendo figuras incríveis de uma geração da vida brasileira, que é a geração de Arthur Moreira Lima. A ausência de preconceito no amor que se dedica à música é um dos seus melhores legados.

Foto/Reprodução

Silvio Osias

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