SILVIO OSIAS
Ben-Hur tem subtexto homossexual, e muita gente não sabe
Restaurado, o clássico de 1959 volta aos cinemas na Semana Santa.
Publicado em 25/03/2026 às 7:04

Uma vez, há quase 10 anos, postei aqui na coluna um texto em que me referia ao subtexto homossexual de Ben-Hur, o clássico filme épico de 1959.
Quando cheguei à redação, recebi o recado que um leitor, se dizendo indignado, deixara ao telefone. Algo mais ou menos assim: "Esse Sílvio Osias, eu sabia que era comunista, agora estou vendo que, além de comunista, também é gay!".
Recebi com bom humor o recado do indignado leitor, que disse ser pastor. Não sou comunista nem sou gay, mas não haveria nenhum problema se fosse.
Lembro agora dessa história porque o Ben-Hur de William Wyler, restaurado em 4K, estará de volta aos cinemas brasileiros na Semana Santa. Será exibido de dois a cinco de abril. Não sei ainda se João Pessoa será incluída nesse circuito.
A primeira versão de Ben-Hur é de 1925. No tempo do cinema mudo. Quem fazia o papel de Judah Ben-Hur era Ramon Novarro. Mais de 90 anos depois, em 2016, a história de Ben-Hur foi refilmada tendo Jack Huston no papel principal.
Mas a mais importante versão de Ben-Hur, a que de fato entrou para a história do cinema, é a que William Wyler realizou em 1959. Vê-la (ou revê-la) na tela grande, com restauração em 4K, será uma experiência extraordinária.
Ben-Hur conta uma história do tempo de Cristo. Daí que tem o subtítulo A Tale of The Christ. Jesus é um personagem secundário, aparece de costas numa cena, mas, perto do desfecho da trama, opera um milagre no momento em que morre na cruz.
Ben-Hur foi 12 vezes indicado ao Oscar e saiu da cerimônia de 1960 com 11 estatuetas. Seu êxito comercial foi tão grande que o filme ajudou a salvar as finanças da Metro.
Quem faz Ben-Hur é Charlton Heston, que já fizera Moisés em Os 10 Mandamentos e logo faria o herói espanhol Rodrigo Diaz de Vivar em El Cid.

A sequência da corrida de quadrigas é uma das mais espetaculares da história do cinema. Se estende por meia hora num filme que tem quase quatro horas de projeção e sempre foi exibido com um intervalo no meio das sessões.
Ben-Hur tem um subtexto homossexual, mas isso não foi divulgado na época da estreia do filme. Quem inseriu o tema da homoafetividade na trama foi o escritor Gore Vidal, um dos roteiristas do filme, que era da comunidade LGBT de Hollywood.
Charlton Heston é Ben-Hur. Stephen Boyd é Messala. Foram os melhores amigos no passado e agora estão em campos antagônicos. O subtexto homossexual escrito por Gore Vidal envolve os dois personagens centrais da história.
A cena do reencontro dos dois, logo no começo do filme, é reveladora, embora, em 1959, quase ninguém enxergasse que ali, naquela relação, havia homoafetividade.
O curioso é que Charlton Heston fez o filme sem saber do que havia nas entrelinhas do texto de Gore Vidal. Stephen Boyd sabia e guardou o segredo.

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