SILVIO OSIAS
Canhoto da Paraíba ficou com violão que foi fabricado para Paul McCartney
Há dúvida sobre a data do centenário do músico nascido em Princesa Isabel.
Publicado em 23/03/2026 às 8:17

Teatro Santa Roza, João Pessoa, uma noite em 1976. Paulinho da Viola e seu grupo apresentavam o show Memórias: Chorando e Cantando quando, na plateia lotada, alguém gritou: "Canhoto da Paraíba!".
Paulinho da Viola prestou atenção no grito e contou uma história que ele sempre gostou de contar tanto em conversas privadas como também nas suas entrevistas.
O relato de Paulinho dava conta da chegada de Canhoto da Paraíba ao Rio de Janeiro, em 1959, e da presença do violonista de Princesa Isabel num sarau de chorões.
O sarau foi na casa de Jacob do Bandolim. Seu César, o pai de Paulinho, tocava violão no Época de Ouro, o grupo de Jacob, e Paulinho assistiu à reunião de músicos.
Canhoto era praticamente um desconhecido que viera do Recife numa Rural (ou num Jeep), mas sua performance foi tão extraordinariamente arrebatadora que alguém atirou um copo de cerveja no teto da casa de Jacob do Bandolim.
Aos 17 anos, Paulinho ainda não se decidira pelo caminho da música e nem ao menos era chamado de Paulinho da Viola. Ele admite, no entanto, que a visão que teve diante de Canhoto foi determinante para a sua vida de artista.
Canhoto da Paraíba era Francisco Soares. Ou Chico Soares, nascido em Princesa Isabel na segunda metade da década de 1920. O ano, não se sabe ao certo. Se foi em 1926, estamos, então, no momento de festejar o centenário do seu nascimento.
Mas há quem diga que não foi em 1926. Pode ter sido em 1927, 1928 ou 1929. O que parece correto é o dia em que Canhoto nasceu: 19 de março.
Chico Soares era canhoto e não tinha um violão para chamar de seu. Por isso, aprendeu a tocar com o instrumento invertido e, naturalmente, de ouvido.
Jimi Hendrix, por exemplo, era canhoto, mas sempre teve o seu instrumento. Invertia a posição da guitarra, mas colocava as cordas da maneira correta. Como Paul McCartney. Canhoto, não. Ele invertia o violão, mas as cordas também ficavam invertidas.
A falta de um instrumento para chamar de seu e a impossibilidade de usar as cordas da maneira correta acabaram dotando Canhoto de um jeito muito particular de tocar o violão. Foi o que o notabilizou, além do fato de que virtuosismo nunca lhe faltou.
Conheci Canhoto da Paraíba pessoalmente nos anos 1990 por causa de uma entrevista encomendada pelo Fantástico. O programa dominical da Globo estava produzindo uma reportagem sobre pessoas canhotas, e me coube gravar com o violonista.
Canhoto tocava com o violão invertido, mas fazia algumas coisas com a mão direita, como se fosse destro. Lembro bem que abria uma lata usando a mão direita.
Num dos nossos encontros, Canhoto usava um violão flat da Giannini, desses que têm a caixa mais estreita e podem ser tocados tanto de modo acústico quanto plugados. O flat, para simplificar, é um híbrido, um instrumento eletroacústico.
O violão flat tem um corte na parte de baixo da caixa que permite um maior acesso da mão aos trastes finais do braço. Notei que o de Canhoto tinha o corte invertido. Ou seja: era fabricado especificamente para um músico canhoto como ele.
Não resisti e perguntei: "Que instrumento é esse? Foi feito para você?". E Canhoto, com aquele sorriso de criança que conservou por toda a vida, contou a história.
O beatle Paul McCartney, numa passagem pelo Brasil, encomendara dois violões flat à Giannini. De volta, algum tempo depois, procurou a fábrica, mas só ficou com um dos instrumentos encomendados. É provável que não tenha gostado dos violões.
Azar de Paul, sorte de Canhoto. A Giannini presenteou o nosso violonista com o flat feito esclusivamente para um músico canhoto. Não era um violão qualquer. Afinal, chegou a ser testado por Paul McCartney e acabou nas mãos de Canhoto da Paraíba.

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