SILVIO OSIAS
Cirandas do Jaguaribe Carne ganham edição em CD
Álbum reúne músicas inéditas de Pedro Osmar e Paulo Ró.
Publicado em 06/01/2026 às 7:22

Isabel, 7 Cirandas Negras e um Apito. Já lançado em streaming, o novo trabalho do Jaguaribe Carne acaba de ganhar edição física em CD. O vinil está agendado para março. São lançamentos da Taioba Discos, aqui de João Pessoa.
Escrevi um texto para as edições físicas (CD e LP) desse conjunto de cirandas do Jaguaribe Carne e reproduzo na coluna desta terça-feira, seis de janeiro de 2026.
Pedro Osmar Gomes Coutinho. Pedro Osmar. Paulo Roberto do Nascimento. Paulo Ró. Conheci os dois no início do curso ginasial, em 1971, no Colégio Estadual de Jaguaribe. Pedro Osmar tinha 17 anos. Paulo Ró tinha 13, e eu, 12.
Eles moravam numa casa modesta na Rua da Paz. Tinham dois irmãos e duas irmãs. O pai, Osias, havia morrido, e a família era comandada por Dona Isabel, a mãe.
Pedro me disse que fazia música e foi lá em casa mostrar as canções que compunha. Meu pai e eu ficamos impactados com a beleza que havia numa canção chamada Cogito Ergo Sum. “Não pare na reta biconexa...” – começava assim.
Paulo Ró ainda não era Paulo Ró. Era Roberto. E ainda não fazia música. Estava, como eu, aprendendo a tocar violão, e me ensinou os acordes de Beware of Darkness, do beatle George Harrison.
Acompanhei o caminho dos dois. A ida de Pedro para o Rio, a volta com a ideia e a realização da Coletiva de Música da Paraíba, o nascimento do Jaguaribe Carne, a música experimental se sobrepondo às canções, o Fala Jaguaribe, o Musiclube.
Pedro Osmar, como na letra tropicalista de Caetano Veloso, organizava o movimento. Paulo Ró participava do movimento, mas, nele, o principal era a música. Dois talentos genuínos, mas com visões distintas e complementares. O movimento e a música em si.
Dona Isabel morreu, não faz muito tempo, Pedro Osmar escreveu pequenos poemas para ela, e Paulo Ró transformou os textos em cirandas. Cirandas negras para Isabel.
Vi ao vivo, em 2022, e ouço agora a gravação em estúdio. É um conjunto uno de canções. Elas formam um só conteúdo, e este é forte, belo e comovente.
Tem vozes, batuques, violões, um trombone, uma guitarra. As vozes femininas são o que lembra mais fortemente a ciranda como manifestação do povo.
Bob Dylan foi folk, migrou para o rock e, nos últimos anos, homem velho, faz algo que parece com o que já havia antes dele.
As cirandas de Paulo Ró e Pedro Osmar me deram essa mesma sensação. Depois de tudo, eles fazem algo que conduz ao que já existia antes deles.
Matrizes, fontes, raízes. O que há delas, dessas evocações, nos caminhos percorridos pelo Jaguaribe Carne é o que nos fascina na audição das cirandas compostas para Isabel.
Em Jaguaribe, na Rua da Paz, muito tempo atrás, na frante da casa de Dona Isabel, o povo cantava e dançava ciranda antes de sair para a procissão da Penha. Talvez seja esse o ponto crucial do que ouvimos nesse novo e imprescindível trabalho do Jaguaribe Carne.

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