SILVIO OSIAS
De volta para o passado ou de olho no futuro?
Projeto Artemis parece estranho para quem testemunhou o Projeto Apollo.
Publicado em 02/04/2026 às 9:07 | Atualizado em 02/04/2026 às 11:28

"Poetas, seresteiros, namorados, correi/É chegada a hora de escrever e cantar/Talvez as derradeiras noites de luar". Isso é Lunik 9, Gilberto Gil, 1967.
"Quando eu me encontrava preso na cela de uma cadeia/Foi que eu vi pela primeira vez as tais fotografias/Em que apareces inteira, porém lá não estavas nua/E sim coberta de nuvens". Isso é Terra, Caetano Veloso, 1978.
Lunik 9 é do tempo em que a corrida espacial mobilizava o mundo inteiro. Quem primeiro poria os pés na Lua? Os Estados Unidos ou a União Soviética?
Terra evoca, em 1978, um fato de uma década atrás. Em 1968, Caetano Veloso estava preso quando os astronautas americanos orbitaram a Lua pela primeira vez.
"A Terra é azul" e "Um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade". O russo Yuri Gagarin, o primeiro homem no espaço, e o americano Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua. 1961 e 1969.
21 a 27 de dezembro de 1968. Os astronautas da Apollo 8 orbitam a Lua, e o lado escuro do nosso satélite é visto pela primeira vez. As "tais fotografias" da Terra vista da Lua foram feitas pela missão Apollo 8 no Natal de 1968.
16 de julho de 1969, uma quarta-feira. No Cabo Kennedy, Flórida, o foguete Saturno V lança a Apollo 11, a nave que levaria o homem a pisar na Lua. Ouvi pelo rádio.
20 de julho de 1969, um domingo. Neil Armstrong, seguido de Buzz Aldrin, entra para a História como o primeiro homem a pisar na Lua. Vi ao vivo pela televisão - áudio e vídeo tão precários quanto imprescindíveis como registro histórico.
17 de abril de 1970, uma sexta-feira. Os astronautas da Apollo 13 voltam para a Terra, encerrando uma missão fracassada que quase custou a vida deles.
"Houston, temos um problema" - a frase do astronauta Jim Lovell foi o que ficou como maior evocação do drama vivido pela tripulação da Apollo 13.
Primeiro de abril de 2026. Por volta das sete e meia da noite, é lançada a Artemis II, a nave que vai orbitar a Lua, 54 anos após o término do Projeto Apollo.
Quatro astronautas. Dois homens brancos (uma americano e um canadense). Um homem preto (americano). Uma mulher (americana). Uma tripulação que responde aos avanços civilizatórios que separam 1969 de 2026.
1969. Sob o republicano Richard Nixon, os Estados Unidos guerreavam no Vietnã. 2026, sob o republicano Donald Trump, os Estados Unidos estão em guerra com o Irã.
Os altos custos e os rumos da geopolítica puseram fim ao Projeto Apollo em 1972. A conquista da Lua é retomada agora, quando não há mais União Soviética, mas China.
Apolo era filho de Zeus e Leto. Ártemis era irmã gêmea de Apolo. Projeto Apollo, Projeto Artemis. Um futuro que virou passado e um presente que será futuro.
Vi o lançamento da Artemis II ao vivo pela televisão. O foguete gigantesco, a pequena nave lá no alto, o céu azul da Flórida. É bonito e é histórico.
Vou fazer 67 anos, lá se vão 57 desde 1969, e vi a subida da Artemis com a nostalgia do menino de 10 anos que testemunhou os primeiros passos de Armstrong no solo lunar.
Para o bem e para o mal, o Projeto Artemis aponta para um futuro do qual não serei testemunha. Orbitar a Lua agora em 2026, pisar na Lua em 2028 - é presente e é futuro, mas, para os contemporâneos do Projeto Apollo, há um gosto de passado.
Quando, minutos depois do lançamento, a Artemis II começou a orbitar a Terra, vimos o quanto nosso planeta é azul. Vimos também o óbvio: que nossa casa é redonda.

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