SILVIO OSIAS
Dos choros do pai ao rock dos Beatles
Integrante do Clube da Esquina, Beto Guedes faz 75 anos neste 13 de agosto de 2026.
Publicado em 12/08/2026 às 7:50

Pode ser essa: "Sua cor é o que eles olham, velha chaga/Teu sorriso é o que eles temem/Medo, medo/Feira Moderna, o convite sensual".
Ou, não sei ao certo, também pode ser essa outra: "Belo horizonte/Monte claro: meu segredo/Marcado pelo som que vem do mato".
Uma das duas é a primeira lembrança que tenho da música de Beto Guedes, integrante do Clube da Esquina, 75 anos nesta quinta-feira, 13 de agosto de 2026.
Muito antes de ser gravada pelo autor (Lô Borges e Fernando Brant como parceiros), Feira Moderna apareceu no FIC, na voz de Zé Rodrix.
Da mesma época, é Belo Horror (Flávio Venturini e Márcio Borges como parceiros), que Beto canta em disco dividido com Danilo Caymmi, Toninho Horta e Novelli.
Era 1972, e a voz de Beto Guedes está no álbum Clube da Esquina. Ele e Milton Nascimento cantam juntos Nada Será Como Antes e Saídas e Bandeiras.
Depois, tem o single em que Milton e Beto releem a Norwegian Wood dos Beatles e refazem Caso Você Queira Saber, da parceria de Beto com Márcio Guedes.
E tem, por fim, o antológico dueto de Milton com Beto em Fé Cega, Faga Amolada, do álbum Minas. As duas vozes a dialogar com o sax de Nivaldo Ornelas.
Tudo isso antecede o disco de estreia de Beto Guedes. Em 1977, aos 26 anos, ele, por fim, lançou o álbum A Página do Relâmpago Elétrico.
Amor de Índio é de 1978, e Sol de Primavera é de 1979. Há alguns outros, mas esses três belos discos sintetizam a música desse mineiro de Montes Claros.
Dá para dizer que Beto Guedes vai dos choros do pai - Godofredo Guedes, músico - ao rock dos Beatles. Resume o caminho do seu repertório autoral.
Mas, no meio desse caminho, há muitos outros elementos. Tem os sons do povo que ecoam pelas montanhas das Minas Geraes, tem o rock progressivo, o jazz.
Beto Guedes é sensível construtor de melodias. E soube ter ao seu lado inspirados letristas. É de onde vem a antologia de suas belas canções.
Beto Guedes toca vários instrumentos. Guitarra, baixo, bandolim. É dele o bandolim que a gente ouve em Pedaço de Mim, no disco que Chico Buarque fez em 1978.
Feira Moderna, Belo Horror, Nada Será Como Antes, Fé Cega, Faca Amolada, A Página do Relêmpago Elétrico, Maria Solidária, Tanto, Lumiar, Nascente.
Amor de Índio, Só Primavera, Gabriel, Luz e Mistério, O Medo de Amar é o Medo de Ser Livre, Cantar, Sol de Primavera, Cruzada, Roupa Nova, Casinha de Palha.
O Sal da Terra, Vevecos, Panelas e Canelas, Canção do Novo Mundo, Balada dos Quatrocentos Golpes, Quando Te Vi, Paisagem na Janela, Tristesse.
Tudo isso é Beto Guedes. Repertório autoral e também não autoral. São canções que fizeram sucesso e outras pouco lembradas. Somadas, retratam a sua música.
Apesar dos hits, Beto Guedes, como Lô Borges, correu por fora, ficou à margem. No Clube da Esquina, foram ofuscados pela figura gigantesca de Milton Nascimento.
Tenho particular afeição pelo álbum Amor de Índio, que me foi apresentado por Pedro Osmar em muitas audições em sua casa, no nosso Jaguaribe dos anos 1970.
Cantar, que é de Godofredo, o pai de Beto, algumas vezes abriu serenatas feitas na janela das moças do bairro. Num tempo em que, naturalmente, ainda havia serenatas.
Feira Moderna. Há várias. A de Zé Rodrix. A de Lô Borges. A dos Paralamas do Sucesso. Nenhuma tão perfeita quanto a que abre o segundo lado de Amor de Índio.
O arranjo, a voz do autor, o solo de guitarra, o solo de sax, o clima totalmente Beatles. "Independência ou morte/Descansa em berço forte/A paz na Terra, amém".

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