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SILVIO OSIAS

Ele juntou o Recife com João Pessoa num ativismo transgressor

Jomard Muniz de Britto morreu nesta segunda-feira, 12 de outubro de 2026.

Publicado em 13/10/2026 às 5:45


					Ele juntou o Recife com João Pessoa num ativismo transgressor
Foto/Reprodução

Pátio, de 1959, é o primeiro filme dirigido por Glauber Rocha. Um curta-metragem experimental com pouco mais de 10 minutos. Jomard Muniz de Britto era o assistente de direção.

No início dos anos 1960, com Miguel Arraes governador de Pernambuco e João Goulart presidente da República, Jomard trabalhava com Paulo Freire na alfabetização de adultos.

Em abril de 1964, logo após o golpe militar, Jomard Muniz de Britto foi preso. Para os militares recém-chegados ao poder, ele era subversivo porque trabalhava com Paulo Freire.

No dia em que foi posto em liberdade, Jomard resolveu ir ao cinema. No Cine Trianon, no centro do Recife, viu Deus e o Diabo na Terra do Sol, que projetou Glauber Rocha no mundo.

Em 1967, Jomard conheceu Gilberto Gil, um jovem artista baiano que ainda não tinha dimensão nacional. Gil fez uma longa temporada no recifense TPN, o Teatro Popular do Nordeste.

O Tropicalismo começou alguns meses mais tarde, a partir do III Festival de MPB, com as guitarras elétricas de Gilberto Gil (Domingo no Parque) e Caetano Veloso (Alegria, Alegria).

Artistas e intelectuais de Pernambuco, da Paraíba e do Rio Grande do Norte se alinharam ao movimento, divulgando um manifesto. À frente deles, estava Jomard Muniz de Britto.

Jomard Muniz de Britto era professor em duas universidades federais, a de Pernambuco e a da Paraíba. Em 1969, sob a vigência do AI 5, foi afastado das salas de aula e cassado.

Conheci Jomard em 1977. Ele tinha 40 anos e estava em João Pessoa para ver Gal Costa no show Caras e Bocas. Fui apresentado a ele no ginásio de esportes do Clube Astrea.

Mas só me aproximei dele em 1980. Anistiado, foi reintegrado ao serviço público e voltou a dar aulas na UFPB. Fundamentos Científicos da Comunicação era o nome da sua disciplina.

FCC I - uma disciplina oferecida aos alunos que estavam começando a estudar jornalismo. A aula de Jomard era um show. Fundia transmissão de conhecimento com salutar transgressão.

Jomard nunca abandonou o espírito libertador do movimento tropicalista. Era modernista, concretista, bossanovista, cinemanovista, tropicalista. Ao mesmo tempo, era tudo isso e muito mais.

No Recife, Jomard Muniz de Britto sempre esteve do lado oposto ao de Ariano Suassuna. Ariano era crítico radical dos tropicalistas. Jomard nunca gostou dos armorialistas.

Tenho amigos muito queridos que conseguiram, simultaneamente, amar Ariano e Jomard. Eu, não. Meu lado era o de Jomard. Nunca o do reacionarismo estético e ideológico de Ariano.

Inventário de um feudalismo cultural era o nome do manifesto dos tropicalistas de Pernambuco, da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Era também o título de um filme de Jomard.

Jomard foi da geração que fez filmes em Super 8 nas décadas de 1970 e 1980. Por isso, é citado no documentário Retratos Fantasmas, que Kleber Mendonça Filho realizou em 2023.


					Ele juntou o Recife com João Pessoa num ativismo transgressor
Foto/Reprodução

O Palhaço Degolado é um dos títulos mais marcantes da filmografia de Jomard Muniz de Britto. Lembro muito bem da cena em que ele brada: "Casa da detenção da cultura!".

Também lembro das filmagens, aqui em João Pessoa, de Paraíba Masculina, Feminina, Neutra. O ativismo cultural se fundia às suas atividades como professor no curso de jornalismo.

Pop Filosofia. Jomard gravou um disco no final dos anos 1990. Misturava música e poesia no que chamou de pop filosofia. Jomard e as palavras. Não era escrever. Era escreviver.

Em 2009, quando fiz uma longa entrevista com Caetano sobre cinema, pedi a Jomard que desse o título. Ele disse: Caetano Cinevivendo. Ficou como tributo aos tropicalistas do Nordeste.

Jomard era um homem alto, sempre vestido com camisas estampadas de mangas compridas, uma voz bonita e inconfundível e uma facilidade de conquistar as pessoas com suas gentilezas.

Jomard era um homem disciplinado, metódico. Chegava a João Pessoa nos domingos à noite, se hospedava no modesto Hotel Aurora e, na segunda, iniciava sua rotina acadêmica.

Frequentou a minha casa em Jaguaribe durante muitos anos, na década de 1980. Entre conversas com meu pai e muita música, "seduzia" minha mãe com flores e caixas de chocolate.

Em três ocasiões, essas visitas foram transformadas em sessões de cinema para nossos amigos. Jomard, com um projetor de Super 8, mostrou seus filmes pernambucanos e paraibanos.

Numa dessas sessões, havia um convidado especial: Celso Marconi, companheiro tropicalista de Jomard e crítico de cinema que, na adolescência, li muito no Jornal do Commercio.

Celsinho traz a lembrança de Aristides Guimarães, Amin Stepple, Antônio Cadengue, Carlos Fernando, Geneton Moraes. Todos, amigos de Jomard. Todos, já mortos.

Eu não estava com Jomard quando conheci Gilberto Gil, em 1975, e Caetano Veloso, em 1979. Mas foi com Jomard que me aproximei deles nos muitos encontros, sobretudo no Recife.

Jomard conversando com Caetano. Jomard conversando com Gil. Eu ouvia mais do que falava. O Brasil, a música, a cultura, a política. Riquíssimos diálogos tropicalistas, vou chamar assim.

Em 2009, Luci Alcântara realizou um documentário de longa-metragem sobre Jomard Muniz de Britto. JMB, O Famigerado. Luci pediu que eu entrevistasse Caetano para o filme.

Gravamos num hotel aqui em João Pessoa. "Para Caetano Veloso, afinal, quem é Jomard Muniz de Britto?". Foi o que perguntei, e Caetano Veloso assim me respondeu.

"Cara, Jomard é muita coisa, muita coisa!

Ele é uma dessas pessoas em constante movimento e uma figura que, pra mim, cataliza no Recife uma série de movimentos da alma entre muitas pessoas. Eu acho que ele profetizou o que veio a acontecer no Mangue Beat com a própria atitude dele. E ele sempre teve uma maneira de ser que era profundamente pernambucana e ao mesmo tempo parecia ter a necessidade e a capacidade de intuir uma maneira de superar as coisas que em Pernambuco pudessem ser travas.

É curioso isto, eu acho. Porque, muitas vezes, grandes pernambucanos, ou grandes pessoas que a gente conhece em Pernambuco, são justamente grandes por serem grandemente restritivas.

Lembro de uma história engraçada de Ariano Suassuna que contam na Bahia. Ele foi a Salvador, quando a Escola de Teatro montou O Auto da Compadecida, e, depois, disse que não tinha vontade de voltar a um lugar onde as pessoas estão num bar, um baiano se levanta para ir ao banheiro e os outros baianos falam bem daquela pessoa que se levantou. Então, para o baiano, que é assim, o pernambucano aparece como restritivo.

E, curiosamente, o temperamento de Jomard parece ser o oposto, porque é agregador, embora eu não diga que ele seja uma pessoa que procure ser diplomática, não é isso, é o próprio espírito assim mais absorvente, mais líquido".

Isso foi em 2009. Muito antes, em 1998, falávamos de Jomard e do braço nordestino do tropicalismo, e Caetano Veloso me disse que "o Tropicalismo é filho da lição de Pernambuco".

Ele se referia ao que Gilberto Gil viu em sua passagem pelo Recife em 1967 e à influência que isso exerceu na formulação dos conceitos que vieram a fazer nascer o Tropicalismo.

"O Tropicalismo é filho da lição de Pernambuco". Fico com a frase que ouvi de Caetano Veloso. Diz muito sobre Jomard Muniz de Britto e o seu tamanho na nossa cena cultural.

Imagem ilustrativa da imagem Ele juntou o Recife com João Pessoa num ativismo transgressor

Silvio Osias

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