SILVIO OSIAS
Esse pode ser meu último voto para presidente da República
Depois dos 70 anos, votar não é mais obrigatório.
Publicado em 05/05/2026 às 6:10

A vida e seus marcadores de tempo. Copa do mundo, mesmo para quem, como eu, não gosta de futebol. Conclave para escolha do papa. Esse não tem periodicidade definida. Eleição presidencial. Como Copa do Mundo, de quatro em quatro anos.
No caso da eleição presidencial, a ditadura militar impôs um longo hiato aos brasileiros. Houve Jânio, em 1960, e, depois, na volta do voto direto, Collor, em 1989.
Antes de votar para presidente, fui cinco vezes às urnas. 1978, 1982 (volta da eleição dos governadores), 1985 (volta da eleição dos prefeitos das capitais), 1986 e 1988.
Meu primeiro voto para presidente foi em 1989. Brizola, minha única paixão na política. No segundo turno, Lula. Jamais votaria em Collor, que venceu, e deu no que deu.
Estava fazendo as contas. Lá se vão nove eleições desde a redemocratização. Os anos e seus vencedores: 1989 (Collor), 1994 (FHC), 1998 (FHC), 2002 (Lula), 2006 (Lula), 2010 (Dilma), 2014 (Dilma), 2018 (Bolsonaro) e 2022 (Lula).

Dessas nove eleições, somente duas, as de FHC, foram resolvidas em primeiro turno. Nas demais, houve segundo turno. Collor e Lula, Lula e Serra, Lula e Alckmin, Dilma e Serra, Dilma e Aécio, Bolsonaro e Haddad, Lula e Bolsonaro.
Em apenas 24 anos, dois presidentes sofreram impeachment. Collor, em 1992, Dilma, em 2016. Assumiram os vices, Itamar Franco (em Collor) e Michel Temer (em Dilma).
Do mesmo modo que jamais votaria em Fernando Collor, também jamais votaria em Jair Bolsonaro. Para mim, ambos representam o que a política tem de mais abominável, desprezível e repulsivo. Bolsonaro, ainda pior do que Collor.
Votei em Lula algumas vezes, mas também votei em Fernando Henrique Cardoso. Nunca concordei com quem demoniza FHC e o classifica como um político de direita.
Sigo admirando FHC, que agora, aos 94 anos, padece do Mal de Alzheimer. Finda a ditadura, ele e Lula tiveram papel decisivo na reconstrução da democracia brasileira.
Em outubro, vou votar mais uma vez em Lula. Jamais votaria num Bolsonaro (Flávio) nem em Zema nem em Caiado. Mas preferia que Lula não disputasse essa reeleição.
O campo progressista deveria ter construído novas candidaturas. Haddad, na centro esquerda, é um grande quadro. Tebet, na centro direita, também é um bom nome.
Nessa eleição de 2026, estarei com 67 anos. Na de 2030, se estiver vivo, terei 71. Depois dos 70, o voto é facultativo. 2026 será, então, meu último voto para presidente?
Aos 71 anos, se vivo e com discernimento, me verei dividido entre o compromisso cidadão com a democracia e o desencanto com a sordidez do jogo político brasileiro.

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