SILVIO OSIAS
George faz muita falta nesse mundo material
O beatle quieto morreu aos 58 anos em 29 de novembro de 2001.
Publicado em 29/11/2025 às 7:50 | Atualizado em 29/11/2025 às 8:02

George Harrison era amigo de Paul McCartney, que o levou para conhecer John Lennon. Os três, mais o baterista Pete Best, eram os Beatles às vésperas da fama.
Best foi substituído por Ringo Starr, e, com essa formação, eles começaram a gravar no segundo semestre de 1962 e conquistaram o mundo no primeiro semestre de 1964.
Em 1969, gravaram o último álbum (Abbey Road) e, em 1970, estavam separados. Parece incrível que tenham sido tão importantes numa trajetória de apenas sete anos.
Em 1963, no álbum de estreia dos Beatles (Please Please Me), George cantava Carole King (Chains) e Lennon e McCartney (Do You Want To Know a Secret). Como autor, em 1963, debutou com Don't Bother Me no segundo álbum do grupo (With The Beatles).
Nos dois discos seguintes, não assinou nenhuma canção. Voltou em 1965 (no Help!) com duas canções de sua autoria, mais duas em Rubber Soul, também de 1965.
No Revolver, de 1966, teve três canções. No Sgt. Pepper e no Magical Mystery Tour, ambos de 1967, apenas uma. No Álbum Branco, de 1968, quatro, mas o disco era duplo.
Yellow Submarine, de 1969, Abbey Road, também de 1969, e Let It Be, de 1970 - cada um desses álbuns trouxe duas músicas compostas por George Harrison.
O fato é que John Lennon e Paul McCartney passavam George Harrison para trás. Ele podia ser o guitarrista principal dos Beatles, e era, mas isso pouco importava.
John e Paul mandavam, dominavam o repertório e, nisso aí, tinham o apoio do maestro e produtor George Martin. Observadas as devidas diferenças, George Harrison foi para os Beatles algo semelhante ao que Brian Jones foi para os Rolling Stones.
As marcas de George Harrison nos Beatles estão tanto nos belos solos de guitarra que criou quanto na influência da música da Índia, através dos instrumentos a ele apresentados pelo amigo Ravi Shankar.
As canções autorais nos discos do quarteto são poucas, mas não deixam de ser admiráveis. Gravada por Frank Sinatra, Ray Charles e Elvis Presley, Something é uma das grandes canções populares da segunda metade do século XX.
All Things Must Pass diz a canção que dá título ao primeiro álbum que Harrison lançou em 1970, depois do fim dos Beatles. São dois discos com um monte de canções de sua autoria e um terceiro LP no qual faz jam session com amigos como Eric Clapton.
My Sweet Lord, música de inspiração religiosa, foi o grande sucesso do seu álbum de estreia, mas valeu a George uma acusação e um processo por plágio. Custou caro.
All Things Must Pass é um disco excepcional, totalmente revelador do talento de George Harrison como autor. Está à altura dos melhores momentos de John Lennon e Paul McCartney depois dos Beatles.
Vamos matar a fome em Bangladesh? Em 1971, Ravi Shankar sugeriu, e George comandou o Concerto Para Bangladesh, que reuniu um elenco de primeiríssima grandeza - Bob Dylan, Eric Clapton, etc. - num show no Madison Square Garden, em Nova York.
Foi pioneiro nesse tipo de evento e, transformado numa caixa de discos e num documentário exibido nos cinemas, o concerto entrou para a história do rock.
Depois de All Things Must Pass, George lançou Living in the Material World. Tem o hit Give Me Love. É uma coleção de canções bonitas e profundamente melancólicas.
O beatle místico que tocava uma guitarra chorosa seguiria muito ativo pela década de 1970, mas, em seguida, diminuiria sua produção. Gravou menos nos anos 1980, mas terminou a década entregando um ótimo álbum, Cloud Nine.
Ao lado de Bob Dylan, Roy Orbison, Tom Petty e Jeff Lynne, formou um grupo improvável - os Traveling Wilburys - que só gravou dois discos.
Entre 1997 e 2001, George Harrison, fumante desde a juventude, lutou contra um câncer que começou na garganta e se espalhou por outras partes do seu corpo.
Os amigos definem, e Martin Scorsese confirma no documentário Living in the Material World, esse beatle quieto como um homem dividido entre a escolha religiosa (era Hare Krishna) e a fortuna que fez com sua guitarra e suas canções. Oscilava entre o senso de humor e a amargura. Era mundano e cheio de luz.
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Esse texto não é inédito. Foi publicado no dia em que George Harrison faria 80 anos e, editado, volta, neste 29 de novembro de 2025, data em que lembramos da sua morte.

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