SILVIO OSIAS
Gilberto Gil ilumina noite de nobrezas no Rock in Rio
Set list trouxe hits permanentes e algumas surpresas.
Publicado em 09/09/2026 às 6:37

"Cérebro eletrônico nenhum me dá socorro/Com seus botões de ferro/E seus olhos de vidro". Isso está em Cérebro Eletrônico, Gilberto Gil, 1969.
"Eu quero entrar na rede/Promover um debate/Juntar via Internet/Um grupo de tietes de Connecticut". Isso está em Pela Internet, Gilberto Gil, 1997.
Quase 30 anos separam Cérebro Eletrônico de Pela Internet. Gilberto Gil abriu com as duas músicas seu show no Rock in Rio, no sete de setembro de 2026.
As letras das duas músicas trazem temas que permeiam o cancioneiro de Gil. Desde, por exemplo, Lunik 9, que é de 1967, dois anos antes de Cérebro Eletrônico.
Juntar Cérebro Eletrônico e Pela Internet no show do Rock in Rio, uma de 69, a outra de 97, reposiciona Gil num debate que é absolutamente contemporâneo.
Não são exatamente hits nem parecem óbvias como abertura de um grande show. Mas trazem o artista para um diálogo com meninos e meninas da geração Z.
Seguiu-se Andar com Fé, um hit de 1982. No songbook de Gil, tem ciência, tecnologia, homem & máquina, vida & morte. Também tem a fé e o papel dela.
Em Tempo Rei, sua turnê de despedida das grandes turnês, Gilberto Gil, num show de três horas, oferecia uma extensa retrospectiva da sua trajetória de artista.
Para o Rock in Rio, num show mais enxuto, Gilberto Gil montou um repertório de 16 músicas, misturando hits permanentes com surpresas muito interessantes.
A banda era praticamente a mesma, mas o show tinha outra vibe. Não era um show de hits nem era um show sem hits. Tinhas os lados A e os recados dos lados B.
Os recados do Marley de Rebel Music. Ou do Cazuza de Pro Dia Nascer Feliz. Os recados do Funk-se Quem Puder. Ou da tropicalista Divino, Maravilhoso.
O tributo à comadre Rita Lee em Ovelha Negra. A reverência a Jorge Mautner em Maracatu Atômico. A presença física de Liminha e seu baixo em Vamos Fugir.
Dessa vez, Gil não cantou Tempo Rei. Mas o tempo rei estava ali, sempre ao seu lado - um homem de 84 anos admitindo que talvez fosse sua última vez no Rock in Rio.

Ou o tempo rei estava no breve vídeo que circulou no dia seguinte ao show, com o encontro emocionante de Gilberto Gil com Elton John, nos bastidores do evento.
Você é uma lenda. Você é maravilhoso. É como Elton John se dirige a Gil. Igual a você, é como Gil responde. Os dois dão conta da melhor canção popular do tempo deles.
"Não se incomode/O que a gente pode, pode/O que a gente não pode explodirá/A força é bruta/E a fonte da força é neutra/E de repente a gente poderá".
É Realce, de 1979, que aparece no meio do show. O recado é poderoso e atual, embora, na época, o salário mínimo de cintilância proposto por Gil fosse tão mal entendido.
No final, tem Dorival Caymmi, João Gilberto e Caetano Veloso na dedicatória de Aquele Abraço. Gil se despede abraçando o povo do Rio e todo o povo brasileiro.
Aquele Abraço vem de longe, de 1969. Do Gil que saía da prisão e se preparava para o exílio. É do mesmo ano e do mesmo disco que tem Cérebro Eletrônico.
No Rock in Rio, Cérebro Eletrônico abriu, Aquele Abraço fechou. Gil iluminou o festival numa noite de nobrezas e deixou o palco ao som de Atrás do Trio Elétrico.

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