SILVIO OSIAS
OLHA O GOL! OLHA O GOL! OLHA O GOL! É DO BRASIL!
Vitórias no Globo de Ouro abrem caminho de O Agente Secreto para o Oscar.
Publicado em 12/01/2026 às 7:00

Não gosto de futebol. Costumo dizer que é um dos meus muitos defeitos. Por isso, não costumo entrar nessa vibe de torcida, de Copa do Mundo.
E não sou de arroubos patrióticos. Prefiro o Cazuza da letra do samba Brasil: "Grande pátria desimportante, em nenhum instante eu vou te trair".
Mas o amanhecer dessa segunda-feira, 12 de janeiro de 2026, pede tanto uma postura de torcedor quanto um verdeamarelismo que não se confunda com o da nefasta direita.
Não gosto de futebol, mas admiro Galvão Bueno e sua assinatura de grande narrador. Então: OLHA O GOL! OLHA O GOL! OLHA O GOL! É DO BRASIL!
Em 2012, em seu álbum Abraçaço, Caetano Veloso gravou uma música chamada A Bossa Nova é Foda. Liberou a palavra foda para uso por nós, jornalistas.
Então: Kleber Mendonça Filho é foda! As duas vitórias no Globo de Ouro o projetam, ainda mais, internacionalmente. Mas ele é foda desde o começo.
Não vi o Globo de Ouro. Vi o tapete vermelho e fui dormir. Acho chatas essas cerimônias americanas. Mas sei o quanto é importante sair de lá com duas estatuetas.
Importante para o filme, importante para a relação do cinema brasileiro com o mercado, essencial para os avanços da produção brasileira de audiovisual.
O Agente Secreto é o Melhor Filme em Língua Não-Inglesa. Brilhante, Wagner Moura, protagonista de O Agente Secreto, é o Melhor Ator na categoria drama.
Kleber Mendonça Filho, esse pernambucano de 57 anos nascido no Recife, é um dos grandes cineastas do mundo, fazendo filmes que, sem qualquer exagero, devem ser postos ao lado dos melhores filmes realizados no mundo.
Kleber Mendonça Filho me traz a lembrança do imenso François Truffaut. Truffaut era um jovem crítico de cinema na França da década de 1950, migrou com êxito para a realização de filmes e entrou para a história do cinema na fundação da Nouvelle Vague.
Kleber Mendonça Filho era um jovem crítico de cinema no Jornal do Commercio, logo ali, tão perto da gente. No Recife que a gente frequentou a vida toda para ver filmes, shows, comprar livros e discos. O Recife e sua extraordinária força cultural.
Kleber Mendonça Filho migrou da crítica de cinema para a realização de filmes. Primeiro, os de curta-metragem, conjunto onde está o excepcional Recife Frio.
Depois, essa série já de cinco filmes absolutamente extraordinários de longa-metragem. Trajetória que começa com O Som ao Redor e chega agora a O Agente Secreto.
Kleber Mendonça Filho era um excelente crítico de cinema. Kleber Mendonça Filho ama o cinema, conhece o cinema, pensa o cinema. E domina totalmente o seu fazer.
Kleber Mendonça Filho faz filmes na sua aldeia, sobre a sua aldeia, e os projeta para o mundo, porque há universalidade dentro deles.
O Brasil, não faz muito tempo, viveu dias tenebrosos. Hoje, felizmente, o personagem central daqueles dias tenebrosos está preso, pagando por parte do que fez.
O Agente Secreto se passa em 1977 e é um filme sobre a ditadura militar sem ser um filme sobre a ditadura militar. E é um filme sobre memória, o apagamento dela e a necessidade de que esse apagamento não ocorra.
Em seu cinema, Kleber Mendonça Filho tem se debruçado obsessivamente sobre o tema da memória. Herança, certamente, de Jocelice Jucá, sua mãe, historiadora, pesquisadora, que atuou no Recife e morreu de câncer em 1995, aos 54 anos.
Kleber está em Marcelo/Armando, o personagem de Wagner Moura em O Agente Secreto. Jocelice está na busca de Marcelo/Armando pela memória da sua mãe.
O passado - 1977, com a foto oficial do presidente Ernesto Geisel na parede - dialoga com o presente, até o grande desfecho do filme, e eu não vou dar spoiler.
O Agente Secreto é um filmaço, perfeito em toda a sua construção narrativa. Já foi visto por mais de um milhão de brasileiros, e a gente espera que a vitória no Globo de Ouro impulsione ainda mais a sua trajetória nas salas de exibição.
O Globo de Ouro abre caminho para O Agente Secreto no Oscar. Vamos ver. Por enquanto, viva Kleber Mendonça Filho! Viva Wagner Moura! Viva o cinema brasileiro!

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