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SILVIO OSIAS

Que bonitos ojos tienes...

Kill Bill, no corte do diretor, é uma incrível experiência na tela grande do cinema.

Publicado em 12/03/2026 às 8:01


				
					Que bonitos ojos tienes...
Foto/Divulgação.

Kill Bill volume 1 em 2003. Kill Bill volume 2 em 2004. São dois filmes de Quentin Tarantino. Não, não. Kill Bill, The Whole Bloody Affair é um filme só.

Kill Bill, The Whole Bloody Affair está em cartaz nos cinemas brasileiros desde a semana passada. As sessões únicas, à noite, duram 4 horas e 35 minutos.

Fui ver, no corte do diretor, e é, de fato, uma experiência incrível. Kill Bill, como um filme só, é um grande filme de um cineasta que só sabe realizar grandes filmes.

Kill Bill é o quarto filme de Quentin Tarantino. Está dito no início da sessão. Antes, em sua pouco extensa filmografia, houve Cães de Aluguel, Pulp Fiction e Jackie Brown.

Depois vieram À Prova de Morte, Bastardos Inglórios, Django Livre, Os Oito Odiados e Era Uma vez em Hollywood. Nove filmes entre 1992 e 2019.

Há a linhagem dos cineastas que filmam muito e, às vezes, erram. E há a linhagem dos que filmam pouco e sempre acertam. Tarantino, como Kubrick, é desse time.

Tarantino tinha 29 anos quando lançou Cães de Aluguel. Tinha 56 quando Era Uma Vez em Hollywood chegou aos cinemas. Agora em março, vai fazer 63 anos.

Faz tempo que promete realizar seu décimo filme e largar o cinema. Já transformou Era Uma Vez em Hollywood num volume de literatura barata. E lançou um livro ótimo - Especulações Cinematográficas - que mistura crítica de cinema com memorialismo.

Kill Bill é sobre vingança. É um tema caro a Quentin Tarantino. Como a forma se sobrepõe ao fundo, prefiro dizer que Kill Bill é um filme sobre cinema.

Cinéfilo formado no tempo das locadoras de VHS, Quentin Tarantino sempre faz filmes sobre cinema. E sabe dar status de grande cinema ao lixo do cinema.

Vendo Kill Bill, lembrei daqueles tempos horríveis em que o Cine Rex, no centro de João Pessoa, só exibia filmes de lutas marciais. Antes, houve os dramalhões da Pelmex, os épicos da Cinecittà e a enxurrada de westerns spaghetti. Tudo no Cine Rex.

Os filmes de artes marciais se popularizaram na década de 1970 e entraram pela década de 1980. Até o fechamento do Cine Rex, que era um belo cinema de rua.

Em Kill Bill, existe arte e rara beleza na magistral sequência em que, com a sua espada, a personagem de Uma Thurman enfrenta e vence dezenas de homens. Coreografia perfeita, montagem arrebatadora - tudo ali, naquele balé, é puro prazer estético.

Segue-se um dos momentos mais bonitos do filme: a luta de Uma Thurman com Lucy Liu. O traje amarelo de Thurman, o vestido branco de Liu, as espadas, a neve caindo, o vermelho do sangue. E Don't Let Me Be Misunderstood com o Santa Esmeralda.

No começo da segunda metade do filme, há o ensaio do casamento e o massacre dentro da igreja - episódio que deflagra toda a trama do filme e a vingança da personagem.

Se o desfecho da primeira metade evoca os filmes de artes marciais, no início da segunda metade Tarantino reverencia Rastros de Ódio, clássico absoluto de John Ford.

A porta por onde entram e saem Bill e suas Víboras Mortais é como a porta que se fecha atrás de Ethan Edwards, o personagem de John Wayne em Rastros de Ódio. Essa imagem de Rastros de Ódios é da antologia das grandes imagens do cinema.

Tenho especial afeição pelos créditos finais de Kill Bill. A apresentação do elenco com os nomes e apelidos de cada personagem ao som de Malagueña Salerosa.

Malagueña Salerosa não é Malagueña. Malagueña é um dos movimentos de uma suíte de 1933 composta pelo cubano Ernesto Lecuona. Malagueña Salerosa é uma canção mexicana que se popularizou no mundo inteiro no final da década de 1940.

O que se ouve nos créditos finais de Kill Bill é Malagueña Salerosa na versão do Chingon. O Chingon é uma banda texana que mistura rock com música mexicana.

"Que bonitos ojos tienes...". O que se vê nos créditos finais de Kill Bill é uma contagiante e vibrante combinação de áudio e vídeo. E uma verdadeira aula de montagem.

Kill Bill pode não ser o melhor filme de Quentin Tarantino. Mas é síntese perfeita do cinema que ele realiza. Tem a assinatura que faz dele um mestre do cinema.

Foto/Divulgação

Silvio Osias

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