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SILVIO OSIAS

Valor Sentimental é um perigo para O Agente Secreto

Filme norueguês chega ao Oscar com nove indicações.

Publicado em 03/02/2026 às 6:41


				
					Valor Sentimental é um perigo para O Agente Secreto
Foto/Divulgação.

Adoro Ingmar Bergman. Ainda vi muitos dos seus filmes no cinema, quando foram lançados. Sueco, Bergman morreu em 2007 aos 89 anos. Saraband, seu último filme, é de 2003. Retoma os personagens de Cenas de um Casamento, de 1973.

Em seu tempo, Ingmar Bergman era considerado um realizador de filmes herméticos por muita gente. Nunca concordei com quem pensava assim. Sempre entendi que a compreensão dos seus filmes dependia do perfil (ou do nível) do espectador.

Ninguém desnudou o ser humano e suas dores com a intensidade com que Ingmar Bergman fez em seus filmes. Bergman foi um dos maiores cineastas do século XX. Bergman realizou alguns dos maiores filmes da história do cinema.

Foi Valor Sentimental que me trouxe lembranças de Ingmar Bergman. O filme do diretor norueguês Joachim Trier chega ao Oscar com nove indicações. Na competição, é um perigo para O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, com quatro indicações.

Os dois se encontraram em Cannes, no ano passado. O Agente Secreto levou Melhor Diretor (para Kleber) e Melhor Ator (para Wagner Moura). Valor Sentimental ficou com o prêmio mais importante da competição, a Palma de Ouro de Melhor Filme.

Os dois se reencontraram no Globo de Ouro. Estavam juntos na disputa do prêmio de Melhor Filme de Língua Não-Inglesa. O filme brasileiro foi o vencedor.

Em março, os dois se reencontram mais uma vez. No Oscar, Melhor Filme Internacional é um prêmio provável para O Agente Secreto. Mas é também para Valor Sentimental.

Valor Sentimental me trouxe lembranças de Ingmar Bergman porque é um filme muito bergmaniano. Um Bergman pós-Bergman, realizado muito depois de Bergman.

Gustav Borg é um diretor de cinema famoso. Ele sai de casa e deixa as duas filhas, Nora e Agnes, com a mãe, uma psicoterapeuta. Só retorna quando ela morre. O filme flagra o reencontro e se debruça sobre o estrago que a ausência do pai provocou nas filhas.

Valor Sentimental é sobre pai e filhas, mas também é sobre irmãs. "Meu bem, meu mal, a família é inevitável", ouvi, certa vez, do psiquiatra José Ângelo Gaiarsa e nunca esqueci. Valor Sentimental é sobre família, esse retrato que a gente põe na parede da casa.

Valor Sentimental pode ser sobre cinema. Gustav Borg é um velho cineasta em declínio. Está há 15 anos sem filmar e luta para fazer um novo filme, enfrentando as regras do mercado, que não são mais as suas regras.

Ser ator. Ser atriz. O mundo do teatro, o palco, a plateia ali na frente. A opção por um repertório clássico. Nora, a filha mais velha, é atriz. Nora vive só, tentou suicídio. Agnes, a filha mais nova de Borg, formou família, casou, tem um filho pequeno.

Quando o pai foi embora, Nora cuidou de Agnes. Adultas, Agnes cuida de Nora. Abraçadas, deitadas uma sobre a outra, Agnes diz que ama Nora. Nora diz que ama Agnes. A cena é bela. É forte, e não é piegas. É um dos pontos altos do filme.

Borg quer que Nora seja a atriz principal do seu novo filme. Ela rejeita a ideia. A personagem foi escrita para Nora. Borg nega, mas o filme é sobre ele, suas filhas, sua família, é sobre a casa/personagem que passou de geração para geração.

Com a recusa da filha, Borg tenta fazer o filme com uma estrela do cinema americano. Mas ela não consegue chegar na personagem, alcançar a sua dimensão. Há os ensaios, a leitura do roteiro e o desfecho doloroso, mais para ela do que para ele.

Não lembro de nenhum outro filme tão bergmaniano quanto Valor Sentimental. Woody Allen bem que tentou, mas, coitado!, em seus dramas, sempre ficou na superfície.

Joachim Trier não fica na superfície. Ele vai fundo nas dores dos seus personagens num filme lento que a gente vê em estado de contemplação. Mais ou menos do jeito que se dava no tempo em que a gente ia ao cinema ver o novo filme de Ingmar Bergman.

Joachim Trier não imita Ingmar Bergman. Não é isso. Joachim Trier tem sua assinatura. Mas há uma saudável influência do sueco no cinema desse norueguês de 51 anos.

Bergman tinha seu fotógrafo. Era Sven Nykvist. Borg tem sem fotógrafo. É Peter. Quer filmar com ele. Mas Peter está velho, cansado, com problemas de mobilidade.

Agnes é o nome da filha mais nova de Gustav Borg. Agnes é o nome da irmã que morre de câncer em Gritos e Sussurros, uma das obras-primas de Ingmar Bergman.

O prazer estético que um filme provoca é algo especial. Valor Sentimental faz isso. Para além do fundo, há a perfeição da forma, há grande cinema diante dos nossos olhos.

*****

Valor Sentimental

Indicações ao Oscar

Melhor Filme

Melhor Filme Internacional

Melhor Diretor/Joachim Trier

Melhor Roteiro Original/Trier e Eskil Vogt

Melhor Atriz/Renate Reinsve

Melhor Atriz Coadjuvante/Elle Fanning

Melhor Atriz Coadjuvante/Inga Ibdsdotter Lilleaas

Melhor Ator Coadjuvante/Stellan Skarsgard

Melhor Montagem/Olivier Bugge Coutté

Foto/Divulgação

Silvio Osias

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