MERCADO EM MOVIMENTO
Sertão Vivo: R$ 150 milhões para água, produção e adaptação climática no semiárido da Paraíba
Programa do BNDES vai atender 37,6 mil famílias em 157 municípios com crédito e assistência técnica
Publicado em 01/06/2026 às 18:58

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) lançou nesta segunda-feira (1º), em João Pessoa, o programa Sertão Vivo na Paraíba. São R$ 150 milhões para fortalecer a agricultura familiar e a adaptação às mudanças climáticas no semiárido, dentro de um pacote maior de mais de R$ 840 milhões anunciados para o estado. O programa foi desenhado em parceria com o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA/ONU) e o Green Climate Fund (GCF), num modelo de duas pernas:
1. Crédito reembolsável (empréstimo), com R$ 126,4 milhões para:
- Infraestrutura hídrica
- Equipamentos
- Sistemas produtivos
2. Recursos não reembolsáveis (doação) R$ 23,6 milhões, em:
- Assistência técnica
- Capacitação
- Suporte social
Na prática, o beneficiário acessa um empréstimo para investir em produção e infraestrutura, enquanto a parcela não reembolsável cobre o suporte técnico, o que reduz o risco de o investimento não se sustentar depois da implantação.
Quem pode participar
Pelos critérios do programa, replicados nos estados onde o Sertão Vivo já opera (Bahia, Ceará, Piauí, Sergipe), podem ser beneficiados:
- Agricultores familiares
- Assentados da reforma agrária
- Comunidades tradicionais (povos indígenas, quilombolas, fundo de pasto)
- Prioridade para mulheres, jovens e comunidades em situação de vulnerabilidade
Na Paraíba, a meta é atender mais de 37,6 mil famílias em 157 municípios, o que representa cerca de 150 mil pessoas em regiões marcadas por seca recorrente, pobreza rural e insegurança hídrica.
O programa foi apresentado, em João Pessoa, pela Diretora de Crédito Digital do BNDES, Maria Fernanda Coelho, que traçou o perfil de quem pode acessar os investimentos. "Esses municípios que se tornaram participantes, pelo menos você tem 70% das famílias no CadÚnico, mulheres jovens e que vivem numa situação de escassez hídrica. Ou seja, em situação de seca, de forma recorrente. O que possibilita que, de forma bastante sustentável, os programas e projetos que serão executados poderão contribuir para a superação desse quadro de falta d'água", explicou a diretora.
O que o dinheiro vira no Sertão
Mais da metade dos recursos será aplicada em infraestrutura hídrica: cisternas, reservatórios e sistemas de reaproveitamento de água. O restante financiará sistemas produtivos resilientes (agroflorestas e quintais produtivos adaptados ao clima semiárido), assistência técnica contínua e capacitação de agricultores, recuperação de áreas degradadas da caatinga, fortalecimento de cadeias produtivas locais e ações de inclusão social para comunidades vulneráveis.

Como acessar
O Sertão Vivo não é uma linha de crédito direta entre o agricultor e o BNDES. A operação funciona por outra via: o BNDES lançou uma chamada pública para estados do Nordeste apresentarem projetos. A Paraíba foi selecionada e o Governo do Estado é o executor local, responsável pela operacionalização. O acesso dos beneficiários ocorre por meio de editais de chamada pública lançados pelo governo estadual para seleção de famílias e territórios prioritários, além das secretarias estaduais e órgãos de extensão rural, que atuam como braço operacional. As cooperativas, associações e entidades técnicas são parceiras na execução local. Após a fase de preparação concluída em maio, o programa entra em etapa de implementação, com contratação de equipes e início da organização da assistência técnica nos territórios prioritários. Os detalhes sobre prazos de inscrição e documentos necessários devem sair nos próximos editais.
Impacto econômico direto e indireto
Para as famílias beneficiadas, o efeito imediato é mais acesso à água, o que reduz perdas de safra e criação nos períodos de estiagem. Isso se traduz em maior estabilidade de renda, já que o agricultor depende menos de ajuda emergencial e consegue manter uma produção mais regular. Quando o dinheiro circula no campo, o impacto se espalha: comércio local, serviços de transporte, material de construção, pequenos fornecedores, cooperativas e feiras são ativados pela demanda gerada pelos investimentos do programa.
Outros investimentos
Fora do semiárido, os outros anúncios do pacote de R$ 840 milhões também movimentam setores distintos. O Complexo Rodoviário Ponte do Futuro, que liga Cabedelo a Lucena e Santa Rita, vai receber investimentos da ordem de R$ 450 milhões. O Arco Metropolitano de João Pessoa (rodovia PB-016), que liga diretamente a BR-230 à BR-101, passando pelo distrito de Cicerolândia, em Santa Rita, terá R$ 185 milhões de investimento. São obras que mobilizam construção civil, engenharia e logística. Já a Cidade da Astronomia vai contar com R$ 55,7 milhões. O empreendimento, em Carrapateira, no Sertão, vai ativar ciência, educação, turismo técnico e formação de talentos, sendo uma aposta em economia do conhecimento para o interior. O empreendimento será instalado em região próxima à Serra do Urubu, em Aguiar, onde está em montagem o Radiotelescópio Bingo, que será o maior do Brasil e da América Latina.

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