EDUCAÇÃO
ChatGPT ajuda ou atrapalha na preparação para o Enem? Professores explicam como usar a IA
Ferramenta pode auxiliar na organização da rotina e na revisão de conteúdos, mas uso excessivo pode prejudicar habilidades como interpretação.
Publicado em 19/09/2026 às 15:00

As ferramentas de inteligência artificial (IA), como o ChatGPT, passaram a fazer parte da rotina de muitos estudantes e também chegaram às salas de aula. Na preparação para o Enem, a tecnologia pode ser utilizada para organizar os estudos, tirar dúvidas e estruturar conteúdos, mas professores alertam que a facilidade de encontrar respostas pode se tornar um problema quando substitui o esforço e a reflexão do aluno.
O Jornal da Paraíba ouviu o professor de Filosofia Márcio Krauss e a professora de Biologia Aurilene sobre os impactos da ferramenta na preparação para a prova. Para os dois educadores, o ChatGPT não precisa ser encarado como um recurso necessariamente positivo ou negativo, pois o resultado depende da forma como o estudante utiliza a tecnologia.
IA pode ajudar na organização dos estudos

Para Krauss, não faz sentido estabelecer uma ruptura completa entre estudantes e ferramentas de inteligência artificial. Segundo ele, o caminho passa pela educação digital, ensinando os alunos a utilizar esses recursos de maneira responsável.
“Eu não sou do time que demoniza a ferramenta, mas também não sou do time que romantiza ela”, afirmou.
Na avaliação do professor, o ChatGPT pode ser utilizado para organizar ideias, estruturar resumos, construir esquemas e até encontrar conteúdos específicos na internet.
A ferramenta também pode ajudar o estudante que já realizou uma pesquisa a filtrar informações e torná-las mais objetivas. Para Krauss, entretanto, esse uso exige maturidade acadêmica, já que estudantes podem acabar recorrendo à IA para substituir etapas importantes do aprendizado.
A professora Aurilene também vê possibilidades de utilização do ChatGPT para a organização da preparação para o Enem. Entre os exemplos citados por ela estão a elaboração de uma rotina de estudos, a identificação dos conteúdos mais cobrados e a relação entre disciplinas, competências e habilidades exigidas pelo exame.
“Dá para utilizar, sim, como uma ferramenta”, explicou.
Respostas prontas podem prejudicar aprendizado
O principal alerta feito pelos professores está relacionado ao uso excessivo da inteligência artificial. Segundo Aurilene, muitos estudantes acabam apenas reproduzindo as respostas encontradas no ChatGPT, sem desenvolver uma reflexão própria.
A professora afirma que tem observado dificuldades entre alunos do ensino médio na organização de ideias, construção de frases, interpretação e escrita de forma clara e coesa. Para ela, a utilização inadequada da IA pode aprofundar esse problema.
“Eles só reproduzem o que eles encontram ali e não fazem realmente uma reflexão”, disse.
Márcio também chama atenção para possíveis prejuízos quando a ferramenta deixa de ser um apoio e passa a substituir o processo de aprendizagem. Entre os aspectos que podem ser afetados, segundo o professor, estão a concentração, o raciocínio, a motivação e o envolvimento com os estudos.
No caso do Enem, ele destaca ainda que saber determinado conteúdo não é suficiente. O estudante precisa conhecer a forma como a prova apresenta suas questões e desenvolver experiência por meio de exercícios e simulados.
“O ChatGPT pode fornecer um caminho mais curto para uma determinada informação, só que a gente precisa transformar essa informação em acerto de questão”, explicou.
ChatGPT não substitui livros, professores e simulados

Outro ponto destacado pelos professores é a necessidade de verificar as informações fornecidas pela inteligência artificial. Isso porque o ChatGPT pode apresentar respostas incorretas ou imprecisas.
Krauss relatou já ter observado casos em que a ferramenta apresentou confusões envolvendo datas, locais e personagens históricos. Por isso, segundo ele, o estudante não deve considerar a resposta da IA como uma fonte definitiva.
A recomendação é confrontar as informações com livros, sites confiáveis e outras fontes de pesquisa.
“Mas eu acredito que o livro, principalmente, precisa ter um protagonismo nessa história”, afirmou.
E na redação do Enem?
Na preparação para a redação, o ChatGPT também pode ter diferentes funções. Márcio considera que a ferramenta pode ajudar, por exemplo, na busca por repertórios socioculturais e na identificação de aspectos relacionados à coerência e à concordância de um texto já produzido pelo estudante.
O professor, porém, faz uma ressalva: não recomenda que o aluno simplesmente peça à IA para escrever a redação por ele.
Segundo Krauss, respostas geradas pela ferramenta podem apresentar argumentos previsíveis e pouco aprofundados, além de não substituírem a avaliação de alguém com experiência na correção da prova.
Por isso, uma possibilidade seria o estudante produzir o próprio texto e utilizar a IA como um recurso complementar de revisão, sem deixar de buscar orientação de professores.
Para Aurilene, o problema também está na perda da autoria e da reflexão quando o aluno entrega à ferramenta a tarefa de construir seus argumentos.
Escola pode ensinar uso responsável da IA

Diante da presença cada vez maior da inteligência artificial no cotidiano dos estudantes, Márcio Krauss defende que escolas e professores também discutam o assunto em sala de aula.
Uma das possibilidades apontadas por ele seria a realização de oficinas, laboratórios e palestras com profissionais das áreas de tecnologia e educação. A proposta seria apresentar aos estudantes os benefícios e as limitações das ferramentas, além de abordar temas relacionados à cidadania digital.
“Seria interessante trazer alguém da educação e alguém do digital, para poder ter uma fala conjunta para esses alunos”, afirmou.
Para o professor, a discussão não deve se limitar ao funcionamento do ChatGPT, mas também abordar os limites, riscos, imprecisões e possibilidades de uso eficiente da tecnologia.
A professora Aurilene segue uma linha semelhante. Para ela, a inteligência artificial pode facilitar atividades de professores e estudantes, mas o uso precisa considerar a idade e a maturidade acadêmica de quem utiliza a ferramenta.
Assim, para quem se prepara para o Enem, o ChatGPT pode funcionar como um recurso complementar para organizar a rotina, revisar conteúdos e auxiliar pesquisas. O desenvolvimento das habilidades cobradas na prova, no entanto, continua dependendo de estudo, leitura, interpretação, resolução de questões, produção de textos e acompanhamento pedagógico.

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