ESPAÇO OPINIÃO
A guerrilha digital mostrou sua força. E a presença digital explica por quê.
Por Jeoás Farias
Publicado em 28/10/2026 às 11:53

O protagonismo de André Janones na campanha de Lula revela como identidade, compreensão do público, engajamento e mobilização se tornaram elementos importantes da comunicação política.
Quando vi a charge do cartunista Quinho, com André Janones no centro de uma explosão de personagens e referências políticas, pensei imediatamente na força que a comunicação de guerrilha alcançou nas eleições de 2026. Como jornalista e especialista em Presença Digital e Consumo de Informação, vejo nessa atuação um exemplo de como a disputa política também acontece pela atenção, pelo reconhecimento e pela capacidade de mobilizar pessoas.
André Janones foi o grande protagonista da comunicação de guerrilha de Lula, a ponto de virar meme nas redes sociais. Expressões como “Posso dormir, Janones?” e “Posso jantar, Janones?” revelavam mais do que o humor dos apoiadores. Demonstravam o envolvimento de pessoas que acompanhavam a campanha quase em tempo real e se sentiam participantes de uma mobilização permanente.
Janones não se limitou a publicar conteúdos ou reagir aos adversários. Conseguiu manter Lula em evidência, estimular conversas e transformar seguidores em multiplicadores de mensagens. Sua atuação ajuda a compreender quatro elementos que considero fundamentais para uma presença digital relevante.
Identidade
Janones construiu uma comunicação com personalidade própria, linguagem popular, provocações e um estilo facilmente reconhecido pelos seguidores. Em um ambiente onde milhares de conteúdos disputam atenção a cada segundo, essa identidade tornou suas publicações identificáveis e criou expectativas sobre suas próximas ações. As pessoas não acompanhavam apenas o que ele dizia, mas também a maneira como dizia.
Compreensão
A estratégia demonstrou conhecimento sobre o comportamento dos públicos e seus hábitos de consumo de informação. Janones compreendeu que as conversas políticas não acontecem somente nos discursos oficiais, mas também nos grupos de WhatsApp, nos memes, nos comentários e nos vídeos compartilhados. Adaptou a linguagem a esses ambientes e aproveitou a velocidade das redes para inserir suas mensagens nas conversas que já estavam acontecendo.
Engajamento e pertencimento
As expressões que viraram memes também revelaram um sentimento de pertencimento. Os apoiadores não queriam apenas receber informações, mas participar da disputa. Comentavam, reagiam, compartilhavam e aguardavam novas orientações. A comunicação deixou de ser uma transmissão da campanha para o público e passou a funcionar como uma atividade coletiva, alimentada pelas próprias pessoas que se identificavam com ela.
Mobilização
Talvez esse tenha sido o resultado mais expressivo da estratégia: transformar atenção em ação. Cada publicação compartilhada, cada comentário e cada meme ajudavam a ampliar a circulação das mensagens. A campanha não dependia exclusivamente de seus canais oficiais, pois contava com uma rede de apoiadores dispostos a distribuir conteúdos e manter determinados assuntos em evidência. É uma demonstração de que presença digital não se resume ao alcance de uma publicação, mas também ao que as pessoas fazem depois de recebê-la.
É importante reconhecer, entretanto, que eficiência na comunicação não significa necessariamente responsabilidade com a informação. Estratégias baseadas em confronto, velocidade e repercussão também podem favorecer exageros, descontextualizações e conteúdos enganosos. Da mesma forma, não seria correto atribuir a uma única estratégia o resultado das urnas. Uma eleição envolve inúmeros fatores, personagens e circunstâncias.
A comunicação de guerrilha mostrou sua força, mas deixou uma lição que ultrapassa a política. *Presença digital não é apenas publicar, conquistar seguidores ou acumular visualizações. É construir uma identidade, compreender as pessoas, gerar envolvimento e transformar relacionamentos em ações.* Janones demonstrou a força desses mecanismos em uma campanha eleitoral. Cabe a nós compreender também seus limites e suas responsabilidades.
Jeoás Farias - Jornalista, especialista em Presença Digital e Consumo de Informação

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