ESPAÇO OPINIÃO
Antes de postar, peça para a IA falar mal de você
Por Jeoás Farias
Publicado em 20/08/2026 às 15:59

Estamos nos acostumando a pedir ajuda à inteligência artificial para escrever melhor, organizar ideias, criar imagens, resumir documentos e encontrar respostas. Mas existe um uso menos confortável e talvez muito mais interessante: pedir para a IA discordar de nós.
Seth Godin publicou uma provocação interessante sobre isso. A ideia é simples: entregue à inteligência artificial um texto, projeto, currículo, plano de negócios ou trabalho criativo e peça que ela produza uma crítica dura. Não aquela análise educada que começa elogiando para depois sugerir melhorias. Uma crítica de verdade.
Trouxe essa ideia imediatamente para a Presença Digital.
Você sabe o que quis dizer. O outro não.
Existe uma diferença enorme entre intenção e percepção.
Quando produzimos um conteúdo, sabemos de onde aquela ideia surgiu, conhecemos nosso repertório e entendemos o contexto. Quem recebe aquela publicação não tem necessariamente nenhuma dessas informações.
É aí que a IA pode assumir um papel interessante.
Antes de publicar, podemos pedir: analise como um cliente desconfiado. Agora como alguém que discorda de mim. Como um especialista. Como alguém que nunca ouviu falar do meu trabalho.
Não estamos tentando descobrir o que todas as pessoas pensarão. Isso seria impossível.
Estamos tentando enxergar possibilidades que nosso próprio olhar talvez não consiga perceber.
Mas nem toda crítica está certa
Aqui está a segunda parte do exercício, que considero ainda mais importante.
Critique a crítica.
Peça à própria IA que procure exageros, vieses, injustiças e interpretações frágeis na análise que acabou de produzir.
Porque receber uma crítica não significa automaticamente que você está errado.
Uma observação pode revelar um problema real. Outra pode apontar uma interpretação possível. E uma terceira pode ser simplesmente ruído.
Saber diferenciar essas três coisas é uma habilidade importante para qualquer pessoa que decidiu assumir sua presença digital.
A IA também pode criar uma bolha sob medida
Existe, porém, uma armadilha.
Se toda vez que a IA disser alguma coisa desconfortável você mudar o comando até receber a resposta que gostaria de ouvir, terá construído uma sofisticada máquina de concordar com você.
E isso também vale para elogios.
Podemos usar inteligência artificial para ampliar perspectivas ou para reforçar nossas próprias certezas. A tecnologia é a mesma. O que muda é a maneira como fazemos as perguntas.
Talvez este seja um dos grandes desafios da IA: não usá-la apenas para confirmar aquilo em que já acreditamos.
Presença digital exige maturidade para ser interpretado
Quanto mais você se posiciona, mais será interpretado.
Quanto mais aparece, mais estará sujeito à concordância, discordância, elogio, crítica e até incompreensão.
Isso faz parte da presença.
Não precisamos transformar cada comentário negativo numa crise nem cada elogio numa confirmação de que estamos certos.
Precisamos aprender a ouvir, analisar e decidir.
A inteligência artificial pode ajudar nesse processo porque permite experimentar outros pontos de vista antes de colocar uma ideia no mundo.
Mas ela não substitui pessoas reais.
Não substitui conversa, reação, experiência, relacionamento nem a leitura de quem efetivamente recebe aquilo que fazemos.
Ela funciona melhor como laboratório de percepção.
Você controla o que publica. Não controla todas as interpretações.
Essa talvez seja a grande lição.
Construir presença digital não significa tentar controlar aquilo que todo mundo pensa sobre você.
Significa conhecer suficientemente sua identidade, seu propósito e aquilo que deseja comunicar para conseguir ouvir outras interpretações sem precisar abandonar quem você é a cada crítica recebida.
Por isso, antes do próximo post, experimente algo diferente. Peça para a IA falar mal dele.
Depois peça para ela questionar a própria crítica. Leia as duas coisas.
Pense. Decida você.
Porque talvez uma das melhores contribuições da inteligência artificial para nossa presença digital não seja pensar por nós. Seja justamente nos ajudar a pensar além de nós mesmos.
Texto inspirado na provocação de Seth Godin em “Consider the AI tear down”.
*Jeoás Farias - especialista em Presença Digital e colunista da CBN

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