ESPAÇO OPINIÃO
Educação e empreendedorismo: o elo que o Fies Empreendedor ajuda a consolidar
Mais do que de uma nova linha de crédito, é o primeiro passo para reconhecer que o diploma pode, sim, ser o ponto de partida para um negócio.
Publicado em 27/07/2026 às 16:17

O Brasil tem uma vocação empreendedora que impressiona. Dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2025, conduzido no país pela Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas (Anegepe) em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), mostram que 31,6% dos adultos estão envolvidos em alguma atividade empreendedora e que 42,5 milhões de pessoas pretendiam abrir um negócio nos três anos seguintes, colocando o país na segunda posição em número absoluto de empreendedores potenciais, atrás apenas da Índia.
Além disso, as micro e pequenas empresas, segundo o Sebrae, correspondem a 95% dos negócios em operação no Brasil, respondem por 26,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e foram responsáveis por 8 em cada 10 novas contratações formais realizadas em 2025. Somos, sem qualquer exagero, uma nação que empreende. O que ainda nos falta, contudo, é uma cultura sólida que conecte, de forma estruturada, a formação acadêmica ao ato de empreender.
É nesse cenário que a criação do Fies Empreendedor, formalizada pela Medida Provisória nº 1.373, de 29 de junho de 2026, e regulamentada pela Resolução CMN nº 5.325/2026, adquire significado estratégico. Mais do que de uma nova linha de crédito, trata-se do primeiro passo para reconhecer que o diploma pode, sim, ser o ponto de partida para um negócio de sucesso.
A proposta é simples e, ao mesmo tempo, transformadora. Estudantes beneficiados com o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e que mantiveram as últimas 36 parcelas em dia, sem renegociação no período, passam a ter acesso a uma linha de crédito específica para empreender. Entre as vantagens, destacam-se os juros substancialmente inferiores aos praticados pelo mercado (aproximadamente 11% ao ano) e prazos alongados. É importante destacar que, embora algumas diretrizes já tenham sido divulgadas, os critérios finais de elegibilidade constarão de portaria a ser publicada pelo Ministério da Fazenda, conforme prevê a resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN). A contratação está prevista para começar em 10 de agosto, por meio do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal.
Em termos práticos, o país passa a oferecer ao jovem que se formou e honrou seus compromissos uma segunda janela de oportunidade: a de transformar seu conhecimento em um empreendimento próprio. E o que me parece mais relevante nessa iniciativa não é o desenho financeiro, embora ele seja tecnicamente adequado. É a mudança de mentalidade que essa política pública inaugura.
Historicamente, o financiamento estudantil foi tratado como instrumento de acesso, cuja função se encerrava com a colação de grau. A partir de agora, o Fies passa a olhar também para o depois. Reconhece que o egresso é um ativo econômico e que sua trajetória profissional merece continuar sendo apoiada. Reconhece, sobretudo, que empreender é uma forma legítima de traduzir o conhecimento adquirido em impacto social, geração de emprego e desenvolvimento regional.
Essa mudança conversa diretamente com um dado que precisa ser enfrentado com seriedade. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), seis em cada dez empresas brasileiras não completam cinco anos de atividade. As causas são conhecidas: falta de planejamento financeiro, gestão amadora, dificuldade de acesso a crédito e ausência de conhecimentos de administração. Os países em que o empreendedorismo é mais robusto e duradouro são exatamente aqueles em que existe forte integração entre os ecossistemas universitário e empresarial, onde a graduação forma não apenas profissionais tecnicamente competentes, mas cidadãos preparados para gerir, inovar e arriscar com método.
O Fies Empreendedor, nesse sentido, cria uma responsabilidade adicional para as instituições de educação superior privadas. Se o egresso adimplente terá, agora, acesso facilitado a crédito produtivo, cabe a elas assegurar que ele chegue à formatura preparado para usar bem esse recurso. Isso significa fortalecer a educação empreendedora ao longo de toda a graduação, e não apenas em disciplinas eletivas. Significa criar programas estruturados de mentoria, incubadoras acadêmicas, aceleradoras universitárias, parcerias com empresas juniores e articulação permanente com o setor produtivo local. Significa entender que formar é ir além de entregar um diploma. É entregar autonomia, protagonismo e capacidade de construção do próprio caminho.
E, sobre esse ponto, a minha convicção é absoluta. A experiência de fundar e desenvolver instituições de ensino, ao longo de mais de três décadas, me ensinou uma lição: a educação transforma quando encontra propósito, e o empreendedorismo é um dos propósitos mais poderosos que existem. Cada jovem que abre seu próprio negócio depois de formado carrega consigo não apenas o conhecimento técnico, mas também a possibilidade concreta de gerar empregos, de fortalecer a sua comunidade e de transformar a sua vida e da sua família.
Também é preciso reconhecer o simbolismo da iniciativa. Ao vincular a nova linha de crédito à adimplência, o Estado envia uma mensagem clara sobre valores como responsabilidade, planejamento e cumprimento de compromissos. Está dizendo, com todas as letras, que quem honrou sua parte no contrato tem direito a novas oportunidades. E isso, em um país onde a cultura de responsabilidade financeira precisa ser fortalecida, é um avanço absolutamente positivo, tanto do ponto de vista econômico quanto educacional.
O Fies Empreendedor não resolverá, sozinho, todos os desafios do empreendedorismo brasileiro. Precisamos de um ambiente regulatório mais simples, de uma reforma tributária amiga do pequeno negócio, de educação financeira desde a escola básica e de incentivo à inovação. Mas o programa tem o mérito raro de conectar, em uma única política pública, três agendas fundamentais para o país: educação, financiamento e desenvolvimento econômico. E o faz sem inventar novas burocracias, apenas ressignificando um instrumento que já existe.
Agora, cabe às instituições de educação superior compreenderem esse movimento como um chamado. Cabe aos estudantes enxergarem, desde o primeiro semestre, que o futuro profissional pode incluir a construção de um negócio próprio. Porque, no fim do dia, formar profissionalmente e formar para o empreendedorismo são, cada vez mais, faces de um mesmo compromisso: o de construir um Brasil que estuda, trabalha e empreende.
* Janguiê Diniz é diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), secretário-executivo do Brasil Educação - Fórum Brasileiro da Educação Particular, fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional; presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group.

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