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Opinião: 'O Agente Secreto' é brasileiro demais para olhos estrangeiros
'O Agente Secreto', fenômeno do cinema brasileiro, pode se dizer um grande vitorioso do Oscar mesmo sem ter ganhado.
Publicado em 16/03/2026 às 10:17

Na política, existe o fenômeno do “ganhou mas não levou”. São casos curiosos, quando o candidato domina o debate, cresce muito em popularidade e ganha um capital político impressionante durante a eleição - só não tem um pequeno detalhe: a vitória. 'O Agente Secreto', fenômeno do cinema brasileiro, pode se dizer um grande vitorioso do Oscar mesmo sem ter ganhado sequer uma das quatro categorias nas quais concorria.
Também parecido com as eleições políticas, o filme faz campanha se quiser ganhar o Oscar. Durante esse processo, ficou claro o sucesso estrangeiro e doméstico do filme pernambucano. Foram entrevistas em programas de sucesso, diversas exibições privadas para pessoas importantes da indústria cinematográfica pelo mundo, repercussão inacreditável nas redes sociais. Além disso, nunca foi tão debatido dentro do Brasil o valor do cinema nacional e o valor agregado que essa indústria tão cheia de desafios traz para o país.
Assim como um fenômeno da política (hoje em dia, seria o candidato que sabe se comunicar nas redes sociais), o longa de Kleber Mendonça Filho uniu qualidades técnicas como roteiro, direção e elenco afiadíssimo. Mas, até o público mais afastado das análises aprofundadas, não pôde evitar ser sugado nos debates que o filme apresenta: o que sabemos sobre esse período? Quem matou? Quem morreu? Por que tantas perguntas sem respostas? Raparigou ou não raparigou?
As perguntas ecoam na mente do público que, com a sutileza da construção do texto, se vê obrigado a refletir sobre as incertezas que cercavam o período da ditadura militar no Brasil e o silenciamento sobre o que aconteceu nos estados do Nordeste na época, tema pouco abordado até nos nove estados. Nas cinco regiões brasileiras, o filme provocou, cumprindo uma das funções mais nobres da arte, fazendo o brasileiro se olhar no espelho.
O que pesou contra 'O Agente', derrotado na noite do domingo, foi exatamente isso. O principal concorrente do longa brasileiro, grande vencedor da categoria de Melhor Filme Internacional, 'Valor Sentimental', é exatamente o oposto. O longa norueguês tem elementos diversos que fazem parte da história proposta: estúdios de cinema, roteiro, teatro, atuação, etc. Na superfície, o filme noriguês fala sobre a produção de um longa que narra a história real de um diretor renomado e a relação conturbada dele com as filhas.
No plano mais interior, a história é simples: os altos e baixos de uma relação do pai (Stellan Skarsgård) e de uma filha (Renate Reinsve). O cenário é o lindo teatro, as casas enormes e as ruas organizadas de Oslo, mas essa história poderia acontecer em qualquer lugar do mundo. Pais e filhos são temas tão recorrentes e inerentes à vida humana que outro destaque do Oscar esse ano é Hamnet, que de uma forma totalmente diferente também fala de pais, mães e filhos.
O poder das narrativas cinematográficas é grande e a categoria dedicada a filmes estrangeiros (para os estadunidenses) tem mais ainda a missão de consagrar a capacidade que histórias têm em viajar o mundo, tocando corações em diversas nacionalidades e idiomas. A facilidade com a qual Valor Sentimental traduz seu conflito é sua maior força, o que lhe deu o favoritismo desde muito cedo nessa verdadeira corrida pela estatueta.
Mas, o mérito de O Agente Secreto em compilar numa narrativa interessante, que entretém e seduz o público, um conflito abafado nas mentes e corações de mais de 213 milhões de brasileiros é gigante. Olhando os debates criados a partir do filme, é possível dizer que o filme ainda não foi compreendido nem por todos os habitantes do Brasil. É um tema difícil, controverso (por incrível que pareça) e que ficou escondido nos porões nacionais durante mais de cinquenta anos por um motivo.
Com contradições, mistérios e um molho que só o nordestino tem, o filme que reúne talentos de todos os cantos do Brasil fez um retrato que resume exatamente o que é o brasileiro. Ele pode ser complicado por vezes e por isso mesmo não teve favoritismo por muito tempo, ficando na sombra de quem é menos polêmico. Mas, ele tem personalidade, se posiciona e deixa sua marca por onde passa. O número de estatuetas conquistadas é irrelevante, 'O Agente Secreto' já conquistou o mundo mostrando o que o nordestino tem de melhor e pode oferecer dentro e fora do país.
* Guilherme Bezerra é jornalista e repórter na rádio CBN Paraíba

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