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ESPAÇO OPINIÃO

Responsabilidade digital e os crimes on e offline

Por Jeoás Farias

Publicado em 28/10/2026 às 11:31


					Responsabilidade digital e os crimes on e offline
Jornal da Paraíba

O preconceito depois das eleições mostra que aquilo que fazemos nas redes sociais também tem consequências na vida real.

As eleições acabaram, mas parece que algumas pessoas ainda não entenderam que votar em um candidato diferente não é motivo para atacar ninguém. Tenho visto manifestações de preconceito contra nordestinos, pessoas negras, pobres e eleitores de Lula. Também surgiram denúncias de comerciantes hostilizando clientes e empresários ameaçando funcionários por suas escolhas políticas.

E tem uma coisa que me chama muito a atenção: será que essas pessoas acham que, por estarem atrás de uma tela, podem dizer qualquer coisa?

Como jornalista e especialista em Presença Digital e Consumo de Informação, acompanho diariamente o que circula nas redes sociais. E percebo como algumas pessoas confundem liberdade de expressão com liberdade para ofender, ameaçar e discriminar.

Mas a internet não é uma terra sem lei. O que pode ser crime fora dela também pode ser crime dentro dela.

Presença digital também é comportamento

Quando falo sobre presença digital, não estou falando apenas de publicar fotos, produzir vídeos ou conquistar seguidores. Estou falando também da imagem que construímos a partir das nossas atitudes.

Imagine uma empresa que passa anos investindo para conquistar a confiança dos clientes e, de repente, publica uma mensagem discriminando pessoas por suas escolhas políticas. O que essa atitude diz sobre a empresa?

O mesmo vale para qualquer um de nós. Aquilo que comentamos, compartilhamos e defendemos nas redes também faz parte da nossa presença digital.

Liberdade de expressão não é liberdade para tudo

Você pode não gostar de Lula, criticar seu governo, defender outro candidato e manifestar sua indignação com o resultado das eleições. Isso é democracia.

Mas atacar alguém por ser nordestino, negro, pobre ou por ter votado de maneira diferente é outra coisa.

Nem toda ofensa é automaticamente um crime, mas ameaças e determinadas práticas discriminatórias podem trazer consequências legais. E não importa se aconteceram pessoalmente ou por meio de uma publicação.

A liberdade de expressão é um direito. Usá-la para violar direitos de outras pessoas não é.

O que você publica não fica só com você

Uma mensagem preconceituosa pode ser compartilhada milhares de vezes. Pode chegar a pessoas que nem conhecem quem publicou e continuar circulando mesmo depois de apagada.

E há outro problema que observo no consumo de informação: quando uma ofensa recebe muitas curtidas e comentários de apoio, algumas pessoas começam a achar que aquele comportamento é normal.

Não é.

O alcance de uma publicação não torna seu conteúdo correto. E quanto mais pessoas você consegue alcançar, maior precisa ser seu cuidado com o que coloca em circulação.

Sua empresa também responde pelo que comunica

Imagine entrar em um estabelecimento e perceber que você não é bem-vindo porque votou em determinado candidato. Ou trabalhar em uma empresa sabendo que sua escolha política pode colocar seu emprego em risco.

Que tipo de relação essas empresas estão construindo com as pessoas?

É claro que empresários podem ter suas preferências políticas. Mas isso não significa que possam discriminar consumidores ou perseguir funcionários.

E aqui volto à presença digital: não adianta uma empresa investir em uma boa imagem na internet se suas atitudes mostram o contrário.

A eleição acabou. E agora?

A gente não precisa concordar sobre política. Nem gostar dos mesmos candidatos. Mas precisa aprender a conviver com as diferenças.

As redes sociais ampliaram nossa capacidade de falar, compartilhar opiniões e influenciar pessoas. Só que essa possibilidade vem acompanhada de responsabilidade.

Antes de publicar alguma coisa, vale fazer uma pergunta simples: estou defendendo minha opinião ou atacando alguém?

É uma diferença enorme.

Tenho insistido que presença digital não é apenas estar na internet. É a maneira como somos encontrados, reconhecidos e lembrados pelas pessoas. E nossas atitudes fazem parte disso, para o bem e para o mal.

O candidato em quem alguém votou não diminui seus direitos nem sua dignidade. E estar diante de uma tela não diminui a responsabilidade de ninguém.

*Jeoás Farias Jornalista, especialista em Presença Digital e Consumo de Informação

Imagem

Laerte Cerqueira

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