Entre Linhas

Craques do passado: pequeno e gigante, goleiro Lúcio dominou década de 1990 e se sagrou hexacampeão paraibano

Ex-goleiro marcou época, superou a desconfiança por conta do tamanho e foi várias vezes campeão

Por Pedro Alves

Ser goleiro é uma tarefa inglória. Mas ser goleiro, sendo baixo, é mais ainda uma missão complicada. Mas foi assim, com uma dificuldade existencial lhe imposta, que Lúcio Carlos da Silva, filho de Cruz do Espírito Santo, marcou época no futebol paraibano na década de 1990 e conquistou seis troféus de campeão paraibano de futebol. 

Quem acompanhou Lúcio vai lembrar bem. Baixinho, ágil e frio. Está na memória dos torcedores do Botafogo-PB, Santa Cruz, de Santa Rita, e do Confiança, de Sapé. Quem acompanhou seus jogos no Almeidão, em João Pessoa, Ribeirão, em Sapé, e Teixeirão, em Santa Rita, viu lúcios fazer grandes defesas e, muitas vezes, erguer a taça de campeão estadual. 

– O Lúcio era muito frio. Era a minha maior característica. Às vezes o goleiro gosta de fazer defesas bonitas, e até complica algumas defesas. Eu me concentrava muito para fazer a leitura correta do adversário – comenta o ex-camisa 1, que hoje tem 51 anos. 

O INÍCIO

Tudo começou na Portuguesa de Cruz das Armas, tradicional clube amador de João Pessoa. Lúcio já começou ali a se acostumar a ganhar campeonatos. Ainda nas categorias de base. No profissional, o início foi no Santa Cruz, de Santa Rita. 

Lúcio ao lado do filho, o goleiro Neto

De lá, Lúcio se transferiu para o Auto Esporte. Aos 21 anos, o jogador foi jogar pela primeira vez em um dos quatro grandes do estado. Foi reserva durante a maior parte da campanha do último título do Alvirrubro, mas chegou a jogar uma das finais contra o Treze. 

– Eu tenho carinho por todos os meus títulos. Momentos importantes. Não consigo dizer qual é o mais importante. Não joguei como titular no Auto Esporte, mas participei de um dos jogos da final e dei minha contribuição – relembra Lúcio. 

NASCE A ESTRELA

O goleiro ficou no Auto Esporte em 1993 e atuou no Vila Branca, de Solânea, em 1994. Em 1995, o Santa Cruz-PB repatriou o goleiro. Começou a investir mais forte no futebol, com o empresário Aldo Marinho, e reuniu uma base de jogadores que a partir dali iria ser hegemônica no futebol paraibano até o fim da década. Lúcio era uma dessas figuras. 

– No Santa Cruz foi formado um grande time. Houve um investimento grande. Para a época, a gente ganhava até bem. Ganhávamos pela renda. O acerto era pela renda. Quando íamos pegar Botafogo-PB, Treze e Campinense e a gente ficava feliz que o bicho seria bom – comentou. 

Pelo Santa Cruz-PB, Lúcio foi bicampeão paraibano

No Tricolor, veio o bicampeonato, de 1995 e 1996, com Lúcio como protagonista, no time titular, defendendo novamente o gol do clube que o abriu as portas para o profissionalismo. Era o tricampeonato do arqueiro e os primeiros e, até hoje, únicos títulos estaduais do time de Santa Rita. 

Desse modo, contratar o goleiro parecia que seria uma certeza de títulos. E Lúcio fez questão de manter a fama. No ano seguinte, o Confiança, de Sapé, contratou alguns jogadores do Santa Cruz-PB. Um deles, o gigante baixinho guardador de metas. Lúcio foi para a terra do abacaxi e, mais uma vez, teve uma doce vida. 

Com uma boa campanha no Estádio Ribeirão, o Confiança-PB foi de franco atirador do campeonato para campeão estadual. Mais uma vez, o camisa 1, com seus companheiros da vez, deu mais um primeiro título paraibano de primeira divisão da história de um clube do estado em que nasceu. 

– Era um bom time aquele do Confiança. Mas naquele ano, a gente era mais forte em casa. Jogávamos em casa e vencemos muito. E a gente se segurava fora muitas vezes – contou Lúcio. 

Após um primeiro turno bem mediano, sem avançar para o mata-mata, o time de Sapé deu show no segundo turno, levou a taça e chegou à fase final. No octogonal final, o Confiança-PB foi muito bem e garantiu o troféu de campeão paraibano de 1997. 

A CONSAGRAÇÃO NO BOTAFOGO-PB

Já fazia quatro anos que o estadual era conquistado por equipes de fora do eixo João Pessoa/Campina Grande, onde estão os maiores campeões do estado. Parecia básico que algum dos chamados grandes deveria apostar naquela base de jogadores que fazia sucesso desde pelo menos 1995. Foi o que o Botafogo-PB fez. 

Foto: Arquivo Baú do Belo

Contratou muitos dos atletas que foram campeões no Santa Cruz e no Confiança e formou um time inesquecível até hoje pelos botafoguenses. A geração de 1998 e 1999, bicampeã pelo Belo, tirando o time de um jejum que estava prestes a completar 10 anos, formou vários torcedores, apresentou um bom futebol em campo e fez história. E, claro, Lúcio lá estava. 

Apesar do histórico, ele não chegou para ser o camisa 1. O paulista Palmieli começou de titular. Mas aos poucos Lúcio foi ganhando a confiança da comissão técnica e assumiu o posto. E não largou mais. O baixinho de 1,75m foi presença constante do Belo em 1998 e 1999 e é um dos jogadores mais conhecidos daquele tempo. 

O Botafogo-PB simplesmente arruinou os adversários, venceu os três turnos do estadual de 1998 e voltou a conquistar a taça. Em 1999 também foi soberano e levou o bicampeonato. Lúcio entrou na história como um goleiro hexacampeão estadual. 

– Foi um tempo muito bom, temos algumas histórias para contar. No Botafogo-PB era aquela história. Um time com mais cobrança e mais pressão. Quando cheguei no clube, pensei que eu havia chegado ali pelo que fiz e que, tudo que aprendi, tinha que colocar em prática para mostrar que eu poderia estar ali – comentou. 

Pelo Botafogo-PB, o goleiro mais uma vez foi bicampeão seguido

Em 2000, Lúcio se transferiu para o Campinense, juntamente com Betinho e Raminho, estrelas do Belo. Mas não obteve mais o mesmo êxito das temporadas anteriores. Em 2001, voltou ao Botafogo-PB, mas passou a conviver com muitas dores nas costas. Descobriu uma hérnia de disco na coluna e foi convencido a parar com o futebol, aos 30 anos de idade. 

– Foi um momento difícil. Na época eu não achava que precisava parar. Acho que daria para fazer algum tratamento, enfim. Foi bem difícil aceitar. Mas aconteceu. Foi um tempo difícil na minha vida. Mas hoje fico feliz de lembrar da carreira – comentou. 

Lúcio atua como preparador de goleiros, em busca de formar outros grandes campeões como ele. Já foi preparador do Miramar, do Lucena e do Internacional-PB. Atualmente, é o gestor do Estádio Carneirão, em Cruz do Espírito Santo, sua cidade, e mora em João Pessoa, onde terminou a sua linda trajetória de levantador de troféus na época de jogador.